E depois você acabou virando objeto de interesse dos jornalistas... Como você vê o trabalho da imprensa hoje?
O jornalista tem um papel crucial, ele é o tradutor de mensagens do mundo, ele é o explicador, o denunciador...

Tá, esse é o papel. Ele está sendo cumprido?
Não, não está. Claro que em determinadas instâncias sim. Existem pessoas excelentes e veículos seriíssimos, mas esses veículos estão sendo sufocados. “Antigamente” é um termo bastante ignorante... mas vou continuar com esse termo. Antigamente, as instituições eram quem determinava o que ia ser feito, ou uma censura reacionária, censura militar, que definia o que ia ser exposto e o que não ia. No nosso tempo são os publicitários, ou nem os publicitários, os anunciantes! São os empresários que decidem a que a gente vai ter acesso. Tem muita gente que vai ficar puta porque diz: “Não, o passado era muito pior!”. Não tô dizendo que o passado era melhor. Eu não sou saudosista em momento nenhum, só digo assim: agora quem determina são os comerciantes!

O problema me parece que é um beco sem saída, porque é uma força invisível, não é aquela coisa clara, vil, da censura assumida que é facilmente identificada e combatida.
Aí entra o refinamento do capitalismo. O dinheiro vai comprando as coisas, as instituições e os veículos. E agora é assim, tudo tem um patrocínio. Infelizmente, é assim que vejo. E o jornalismo cultural então...

Que tem o jornalismo cultural?
Tem muito recalque. É uma preocupação muito mais com o bastidor, a vida pessoal. É o bom e velho sensacionalismo, mas na cultura parece que a preocupação é em chegar ao ponto fraco para mostrar o fundilho daquela pessoa. Tá muito mais focado na pessoa do que propriamente no que ela está fazendo. Vamos dizer, você está me entrevistando, mas vamos dizer que você não gosta da minha música. Mas você escreve para quem possivelmente vai gostar — é assim que deve ser.

Às vezes tenho a impressão de que o jornalista cultural está mais preocupado em parecer que faz parte do circuito do que em entendê-lo. Que prefere fazer parte da fofoca a ir além dela.
Isso mesmo. Acho que o recalque vem um pouco daí também, de uma frustração. Aí fodeu, não vai ficar bom mesmo. É aquele mesmo lance da música, fazer pra receber em vez de fazer para dar algo. Principalmente em jornalismo cultural, que envolve muito ego, vira um exercício de chupação do próprio pau, de tentar fazer uma carreira baseada na persona, menos que no conteúdo em si, na visão.

Falando em ego e visão, tem gente que você toma como mestre?
Muitos, muitos mestres. Paulo Leminski,William Blake, Oscar Wilde, Victor Hugo, Morrissey, Ninjisnski, Peter Sellers, Henry Mancini, Fernando Pessoa...

Mas aí você tá falando de gente extremamente talentosa. Mas que não necessariamente é um modelo de vida, de conduta, de visão.
Essas pessoas que eu tô dizendo, quem quer que seja, eu não conheço. Então tomo como mestre quem eu imagino que eles são. Não que eu os crie, mas o que absorvo ali de ensinamento. O que você tá falando é outra coisa, aí digo que os meus mestres são os meus amigos. As pessoas que escolho como amigos são pessoas que admiro. Claro que todo mundo tem sua escrotice e, mesmo assim, essas pessoas não deixam de ser mestres em alguma coisa. Fabrizio é meu mestre, Pedro Sá é meu mestre, Moreno Veloso é meu mestre, Kassin é meu mestre, Caetano Veloso, Nilson Primitivo, Jorge Mautner e Karine Carvalho são meus mestres.

Falando de família, Quer ter filho?
Tô doido pra ter um filho.

E a patroa, também?
Pô, há muito tempo! [Risos] É, já tá na hora totalmente. Eu já tô casado há sete anos, quase. Acho que só não tive este ano porque minha vida está assim. Eu não tenho casa, só tô vivendo com uma mala e um violão...


 
 

 
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