Falando em exorcismo e desapego, você acredita em Deus?
Eu investigo Deus. É claro que acredito, senão não estaria investigando. A sintaxe, a forma, o modus operandi do acaso. É meu grande tema, meu grande interesse, minha diversão. E aí a palavra Deus é só um ponto de interrogação.

É um bom começo.
É. Exatamente. Tanto é que, em várias músicas, acabei deixando escapar essa minha dúvida. Porque eu não acho que escrevo para ensinar nada a ninguém a não ser a mim mesmo. Então a maior parte das coisas é para mim como ponto de interrogação, como proposta de pensamento. Me interesso por qualquer coisa que seja difícil de ser explicada e constrangedora de ser resumida.

Religião nem pensar?
A única relação com religião que tive foi a rejeição. Desde pequeno, eu odiava entrar em igreja. Mas comecei a ter uns sonhos incríveis e procurei, através de um amigo, os espíritos. Comecei a freqüentar centro espírita, a abrir minha cabeça, a exercitar a mediunidade. Por causa disso, comecei a ler outras coisas. Eu não me sinto religioso porque não tô tentando interpretar textos de determinada origem religiosa como sendo divinos. Mas me interesso pela espiritualidade.

 
   

Você já teve experiência mística mesmo?
Já... Tive uma experiência que foi incrível. Sonhei com um amigo meu... a gente se encontrava e ele dizia: “Vem ver meu filme”. E o lugar era uma sala de escola, as cadeiras em forma de pirâmide, o meu lugar era na ponta, eu sentado em frente a uma televisão onde ele passou um filme. Um filme mudo. Lembro de tudo, dos cortes, dos movimentos de câmera. Aí acordei e liguei pra ele na hora. Quando contei ele me falou que é uma idéia de um filme dele! Com cenas, símbolos específicos, que eram coisas que ele tinha desenvolvido. Isso foi um marco, quando falei pra mim: “Aí tem!”.

E a idéia da morte. Você é tranqüilo com ela, aceita em paz?
Claro, aceito em paz. Aprender a morrer é aprender a viver. Aprender a viver é aprender a morrer. Tanto é que sou fascinado com isso. Se tenho medo da morte? Eu posso dizer que não. Porque me interesso e investigo a morte como lugar. Mas se você perguntar: você quer morrer? Não! Claro que não, eu quero viver o quanto puder.

Mas e o momento da morte em si, de saber que ela está chegando em questão de minutos ou segundos. Não te dá medo?
Aí é terrível... Eu sou jovem. Tem um pedaço pela frente, grande. Mas eu já passei um pedaço... dá pra sentir. Então é um pouco triste. Mas é por isso mesmo que me sinto sortudo e carrego uma caveira sorridente no meu pescoço [tira o colar para fora da camiseta e mostra uma caveira com um sorriso escancarado]. Ela serve para me lembrar que a vida é curta. Então devo fazer aquilo que gosto de fazer, o que sinto que devo fazer, para quando eu morrer eu ficar assim, igual à caveira. Na condição de antiarrependimento. Por esse lado, a minha situação financeira do momento é transitória, é inferior à alegria de ter realizado essa música, que, se Deus quiser, vai viver um pouquinho mais do que eu.

É essa a função da arte pra você?
Mais do que isso... música popular, por mais que seja um produto, tem um poder político e medicinal, assim como qualquer arte. O poder de tocar o coração, emocionar, ou seja, de fazer os fluidos de uma pessoa circularem melhor, mais rápido, por um instante. Eu digo fluidos querendo trazer o sentido do humor, que é a capacidade de os fluidos circularem. Então, se eu for capaz de emocionar alguém, se eu for capaz de fazer alguém olhar para si mesmo com novos olhos, se essa pessoa tiver vontade de dividir essa bobagem que é uma musiquinha com outro... Então, essa é a minha pequena contribuição para a crise. É uma musiquinha que vai fazer a pessoa se sentir melhor, e talvez reflita numa outra coisinha que ela vai fazer depois. Isso tem um poder político, entende?

Falando de poder político, por que você foi estudar jornalismo?
Quando entrei na PUC achei que ia fazer publicidade. Porque, quando eu tinha 17 anos, fui levado a acreditar que a única chance de sobrevivência para alguém que queria uma vida criativa era se inserir no mercado, na publicidade. E o que você gosta mesmo de fazer vira hobby. Quando comecei a estudar, falei: “Cara, nem pensar!”. Aí pensei, “bom, no jornalismo vou ter a oportunidade de pesquisar o que eu quiser, vou poder me aprofundar em determinados temas...”. Aí a faculdade foi minando o meu tesão de forma aterrorizante. Nem tanto por parte do curso em si, mas por causa dos meus colegas, e qual era a aspiração deles. Aí eu vi que não tinha nada a ver com isso. Fui um dos fundadores do centro acadêmico de filosofia e matemática, com outro grupo. Comecei a pegar as eletivas que me interessavam e aí larguei. Mas realmente por um tempo acreditei que ia estar daquele lado.


 
 
 
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