Você acha que o fato de os seus fãs serem assim tão intensos, emocionados, tem a ver com uma carência cultural? Não só por a banda ser boa, mas também pela falta de bandas que também estão tocando eles?
Eu acho, claro. Do contrário estaria dizendo que a gente é mesmo maravilhoso. Você tem razão... O Renato Russo disse uma vez que achava que tinha tanta banda ruim porque a maioria delas tentava fazer música para tirar alguma coisa de alguém. Dinheiro, status ou fama. O melhor é você fazer música para dar. Você se junta com seus amigos, carrega amplificador, se esforça porque no fim você quer ver a pessoa na platéia se sentindo presenteada. Claro que do outro jeito também rola, mas a longo prazo e no coração das pessoas esse tipo de postura não sobrevive.
Não sei se você concorda, mas sinto que além de financeira a crise é também criativa. Parece que hoje em dia o que está sendo produzido é baseado num sentimento nostálgico e não em um olhar para o futuro. O que você acha?
Pode ser, mas esse movimento é da arte. O passado é o solo onde se vai plantar. A gente inventa muito menos que acha. Historicamente, esse movimento de expansão e contração é a pulsão dos movimentos artísticos. Não tô dizendo que são organizados, são inconscientes. Reconheço o que você tá dizendo, mas não como negativo. O reconhecimento da crise é um passo, é matéria da solução.
E como está sendo fazer música com os americanos?
Acabei de ter essa experiência de escrever música de uma forma totalmente diferente do que eu tinha feito antes, totalmente. No Los Hermanos fiz algumas músicas com o Marcelo, mas o processo de composição era um pouco mais frio do que tive aqui. Não querendo dizer que era melhor ou pior, mas era assim: o Marcelo vinha com uma progressão de acordes e eu seguia dali. “A Flor” foi a única música que a gente sentou junto e fez. De resto, todas as letras eram ou minhas ou dele, as músicas eram ou minhas ou dele. Quando cheguei aqui, o Fabrizio tinha algumas músicas inacabadas, aí ele falou “pô, me ajuda aqui” e a gente junto começou a fazer. A Binki também tinha umas músicas inacabadas. A gente tinha o tema, conversava sobre ele, cada um escrevia um verso.
Mas já era uma banda?
Quando a gente começou, não tinha idéia de fazer um disco. Era só para terminar aquelas músicas. Mas o Strokes e o Los Hermanos estavam dando um tempo nessa época e acabou rolando o Little Joy.
E como você conheceu essa turma?
O Devendra eu conheci em Londres, quando fiz parte de uma puta banda que montaram para tocar o disco Tropicália. O Fabrizio foi em Lisboa, num festival em que tocaram Los Hermanos e Strokes. A gente se conheceu no backstage e ficou bebendo até oito da manhã, amizade instantânea. Quando fui para Los Angeles gravar com o Devendra, o Fabrizio estava na cidade. Aí a gente começou a se encontrar, eu o apresentei pro Devendra, depois o Devendra pro Nick Valensi. Meio que juntei todo mundo e virou uma turma mesmo.
Você acha que você vai ficar aqui pelos EUA?
Acho que não. Não tenho planos de ficar aqui, mas não sei, cara. Porque para falar a verdade sinto vontade de ficar e sinto vontade de ir embora, por diferentes motivos. Então, como sei que o meu acaso tá recheado de sonho, meu destino tá recheado de sonho, vou seguir sonhando, entendeu? Porque a maior parte do que vai determinar o meu destino tá fora do meu alcance. Então eu continuo sonhando, ou seja, fazendo aquilo que sinto que é o melhor que posso fazer, que é aquilo de que eu gosto. E vou ver no que vai dar. A relação é mais com as pessoas do que com o lugar.
Pra você é difícil compor?
Com certeza tem uma carga de ansiedade grande. Mas é divertido. Falam muito de inspiração... Claro que a prática de colocar a sua mente à disposição de criar é fundamental, mas se você não trabalhar... o que quero dizer é o seguinte: o que eu descobri com o ritual da escrita é o ato de trabalhar em si, de escrever. Quantas músicas as pessoas admiram a letra... e eu comecei a escrever qualquer merda que vinha na mente, escrever, escrever. Se você vir os cadernos onde eu escrevia minhas letras, às vezes tem 20 páginas só de risco. Só de frase e risco, frase e risco. Aí aparece uma frasezinha circulada. Quer dizer, começa com uma pedra quadrada e um martelo na minha mão, aí é porrada. Quando termino uma música, cara, é uma sensação de alívio que transcende o lance da realização com o trabalho. Acho que é uma espécie de exorcismo de uma série de coisas. Até questões psicológicas e que não sou capaz de compreender exatamente, mas que estão ali.

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