Você falou de sonho. E me parece que a gente tem vivido uma época que mais pessoas estão começando a acordar para o fato de que montamos uma sociedade baseada em uma ficção, um sonho fadado a terminar. Você está preocupado com a crise, está vendo isso como?
Em um sentido imediato eu deveria estar mais preocupado. Até porque, pra falar da crise geral, o meu ponto de vista é um ponto de vista particular, como o de todo mundo. Eu me lancei em um negócio que não tinha a menor idéia no que ia dar. Vim pra Los Angeles gravar com o Devendra Banhart, depois voltei pra cá para fazer músicas com o Fabrizio, ficar umas duas semanas. Fiquei seis meses. Hoje você mesmo viu que é outro percurso. E não estou ganhando dinheiro. Quando digo que deveria estar preocupado, falo da minha própria crise financeira. Mas não é pra isso que estou nessa. Já aprendi que, no meu caso, não adianta correr atrás de dinheiro. E, no caso da crise do mundo, é a crise do dinheiro, da ordem do dinheiro. E, pra mim, enquanto dinheiro não for dividido, não vai dar certo. Mas enfim sei que não tenho gabarito para fazer nenhuma análise que vá prestar agora.

Entendo que não está ganhando bem hoje, mas você fez uma boa grana com o Los Hermanos, não?
Não, cara. Não fiz, não! Não tenho nada, não tenho casa, meu carro é um Fusca.




Pera aí, se a maior banda do Brasil não faz dinheiro, quem faz?

Pois é, exatamente isso é que deve ser explicado pras pessoas. Tem o lado que ajudei muito a minha família com a grana que ganhei. Desde o comecinho eu tinha que pagar todas as minhas contas, pagar seguro-saúde não só pra mim, mas pras pessoas em minha volta, ajudar pessoas da minha família que precisavam. E esse fato de nos últimos quase dois anos eu não estar ganhando dinheiro. Eu fiz turnê com o Devendra aqui e ali, mas muito poucos shows pra me manter. E aqui nos Estados Unidos eu moro de favor, morei com o Devendra um tempão, agora tô ficando principalmente com o Fabrizio. Estou vivendo de dinheiro emprestado. E vou indo, porque sei que estou onde tenho que estar. Nunca cheguei perto de ser rico, apesar de eu me sentir rico. Porque faço o que quero fazer, tenho dinheiro pra comer, tenho roupa pra me proteger do frio, tenho bons amigos. A vida é boa.

Confesso que fico surpreso. Você passou anos em uma banda que vendia muito disco e lotava todo show que fazia.
Claro que eu fiz dinheiro, mas nunca o suficiente para comprar uma casa. Nunca, nunca. E eu não sou gastador, não. Mas é porque escolhi usar o dinheiro da forma como achei melhor. E foi melhor mesmo, eu não me arrependo, acho que tá indo certo. Claro que, se o Los Hermanos estivesse em turnê, se eu tivesse lançado um quinto disco, talvez agora eu tivesse dinheiro pra comprar um apartamento. É que as pessoas imaginam: “Ah, ele tá morando em Los Angeles, passeando com as estrelas de Hollywood”. Nada disso, vida de músico é matar um leão por dia mesmo! É ganhar dinheiro saindo de casa com sua malinha e indo tocar pras pessoas...

Percebe-se. É curioso ver você e o Fabrizio, das bandas mais do que bem-sucedidas em seus países, montando o palco, tocando em barzinho, carregando a van.
Muita gente me pergunta por que fazemos isso. Mas a nossa condição é a de uma banda nova, e a gente não tem ilusão. A forma como essa turnê é possível — e a gente queria fazer uma turnê, tocar, mostrar nosso som ­— é essa. Então, vamos fazer assim. Eu tô achando bom você ter vindo pra cá, porque aí todo mundo vai entender. Até gente da minha família deve achar que eu sou rico. “Ah, você apareceu na televisão? Então é rico!” Adoraria estar ganhando muito dinheiro, poder alugar apartamento em Los Angeles. Nem isso eu posso. Fico na casa de um e de outro, e por aí vai.

OK, você não ficou rico, mas como é ficar famoso?
É bem estranho. Mas a escala em que sou famoso é confortável, porque ninguém me enche o saco. Algumas pessoas vêm falar comigo, e pra mim é ótimo. Pô, eu fiz umas musiquinhas... vou na padaria e o cara diz: “Adoro sua música”. Legal! Então eu não me sinto famoso, me sinto reconhecido. Porque geralmente a pessoa que sabe quem eu sou conhece a banda, a minha música. Mas é esquisito mesmo. Às vezes alguém chega como se me conhecesse, e eu não sei porra nenhuma sobre a pessoa.

Como se tivesse intimidade...
E não é uma coisa errada. Porque eu escrevi uma música. E ali tem uma série de códigos que, mesmo que eu não esteja na intenção de me expor, é uma exposição filha-da-puta. Então, de fato, a pessoa tem uma relação com uma parte de mim. Tem uma coisa, um elo em comum, só que eu não tenho o outro lado. Então essa parte é estranha...

 


 
 
 
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