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O que mudou na sua cabeça dESDE a última vez que nos FALAMOs, em 2003?
Fazendo um retrospecto, acho que naquela época eu estava muito mais confuso. Ainda tinha dúvida em relação, vamos dizer assim, ao que eu servia.
É mesmo?
É, por incrível que pareça, apesar de eu já estar trabalhando como músico há muito tempo, sempre quis ter feito faculdade de cinema, fiz de jornalismo, mas aí eu não gostei nada, migrei para filosofia e letras... Quando a gente lançou o Ventura eu ainda achava que ia desenvolver meu trabalho com gravuras, que hoje faço de onda mesmo. Minha carreira não parecia uma coisa séria, eu realmente não acreditava em nada. Era a fase que os astrólogos chamam de retorno de Saturno, quando você tem 27, 28 anos, e fica naquela maluquice, não sabe direito o que vai acontecer.
Agora você já se convenceu de que é músico?
É. Eu não deixo de fazer nada do que estava fazendo, mas não perco meu tempo duvidando de mim tanto quanto eu ficava. Ainda duvido um pouco, mas agora eu tenho mais calma para entender que eu sei fazer música. Seja boa ou ruim, pelo menos eu posso continuar fazendo isso.
Até porque toda banda que você se meteu foi para a frente.
É. Mas eu sou muito sortudo. Todas as bandas, essa de agora, a Orquestra, o Los Hermanos... Eu lembro de não ter pedido nada pra ninguém. Foi meio que a circunstância, o acaso, sorte.
O que você acha que é sorte?
Acho que sorte é produto do pensamento, do sonho. Eu acho que o pensamento é uma forma de ação às vezes mais eficaz do que a fala. Porque a fala é pervertida demais. A gente fala pra tudo. A maior parte do dia, a gente passa falando qualquer coisa ou jogando conversa fora. E aí tem uns momentos de iluminação, de franqueza. Mas o pensamento é uma conversa interna, a gente é muito mais franco e muito mais contundente no pensamento. Então, eu só tenho a opção de acreditar que o pensamento tem um poder de ação muito incrível. E que o sonho, no sentido mais amplo, no sentido do desejo, no sentido do afeto e no sentido literal do sonho, de dormir e sonhar, eu só posso acreditar que isso tenha um papel fundamental na construção do destino, ou seja, no caos, no acaso.
Explica melhor.
Eu tenho consciência de que isso é uma afirmação bastante perigosa, mas eu não me importo. Quando digo que eu tenho sorte, tenho que ser franco e dizer: “Pô, quantas coisas que eu sonhei se tornaram realidade?”. Coisa que sonhei no sentido amplo, não só no sentido direto de desejar ser músico, de desejar ter uma banda. Mas desejar ter amigos fiéis, entendeu? Lembro aquele filme Waking Life, do Richard Linklater. Tem uma cena em que uma criança brinca um joguinho, ela fala um número e puxa um pedaço de papel que tem uma cor, ou um número, ou não sei quê... o que interessa é que ela escolhe um dos lados e está escrito “Sonho é destino”. Aquilo me tocou como um ensinamento. Porque acho que as coisas mais banais têm um poder oracular. Eu não sei se eu me divirto fazendo isso, e aí funciona pra mim, ou se realmente é uma coisa que deve ser levada a sério.
Na verdade é uma questão de escolha. Se aquilo é de fato um oráculo ou se você escolheu ver assim... que diferença faz?
Exatamente. Voltando ao que a gente falou, uma das coisas que mudaram em mim foi justamente eu me sentir mais à vontade pra falar desse tipo de coisa. De não ficar mais preocupado em qual é a forma de pensamento estabelecida e desenvolver minha própria forma de pensamento, minha própria realidade e observação das coisas. Há quem discorde? Paciência.
Há quem discorde que dois mais dois são quatro...
Claro, graças a Deus. Por isso, em vez de me sentir inseguro em falar e pensar sobre isso eu me divirto, entendeu? Não tenho problema em talvez ser contraditório na minha percepção das coisas, porque sinto que tô investigando, não estou encontrando a verdade. Esse era o problema antes, “será que eu estou certo?”, não, eu não tô certo, eu tô em percurso.
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