Você disse que um dos componentes conservadores é o medo. Você, um conservador, tem medo de quê?
Vivemos em um tempo que é decisivo no que diz respeito a conseqüências. E o que pode ser mais significativo do que, em uma só geração, a perda de metade do legado cultural e espiritual da humanidade? É isso o que está acontecendo hoje. Meu medo é o mesmo da antropóloga Margaret Meade, uma pessoa única. Pouco antes de ela morrer, vendo o mundo indo para um caminho de homogeneidade, de uma cultura moderna tão poderosa que não teria rivais, ela temia que toda a imaginação da humanidade fosse confinada a uma única modalidade cultural e espiritual. E seu pesadelo era que um dia nós nos daríamos conta disso, mas não nos lembraríamos mais o que perdemos. É a degradação tanto da biosfera quanto da etnosfera.

O que é etnosfera?
Eu queria uma palavra que resumisse o seguinte: assim como há a biosfera, a rede biológica da vida, também existe uma trama que envolve a Terra, uma rede cultural da vida. É a soma de todos os pensamentos, sonhos, mitos, intuições trazidos pelo homem desde a aurora da consciência. A etnosfera é o grande legado da humanidade. Assim como a biosfera, a etnosfera também está seriamente ameaçada. E ainda mais do que o meio ambiente, eu diria. Nenhum biólogo ousa dizer que 50% das espécies estão à beira da extinção. Mas é exatamente isso que está ocorrendo com a diversidade cultural. O indicador máximo são as línguas. Hoje há 7 mil delas no mundo. Mas só metade está sendo ensinada para crianças. O que significa que, sem uma ação imediata e abrangente, essas línguas já estão mortas.

E por que a extinção dessas línguas é tão grave como você sugere?
Sete mil línguas representam culturas e modos e vida diferentes. São 7 mil respostas diferentes para a mesma pergunta: o que significa ser humano, o que significa estar vivo? Cada uma é um universo rico de como interpretar a existência em si.

O mundo está achatando?
Eu acho que o mundo continua sendo uma rica topografia do espírito. Não é achatado, mesmo. Nós temos essa idéia de que essas culturas coloridas e exóticas estão fadadas a desaparecer porque são tentativas fracassadas de serem como nós. Que há um sentido natural na extinção delas. Isso é um erro colossal. Na verdade são povos e culturas vivas e dinâmicas que estão sendo levados à destruição por forças claras. Ideológicas, como no caso dos chineses contra os tibetanos, industriais, no caso dos desmatamentos gananciosos, biológicas, como doenças levadas por brancos aos povos do rio Negro. Voltando ao que falávamos, no fim das contas é a economia que está destruindo culturas que não enxergam o mundo por esse prisma.


 
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