Pra começar: como antropólogo, como você vê a eleição de Obama?
Ah... foi tão importante. Meu medo era de ele não ganhar, e nosso recado para o mundo seria, mais uma vez, que, apesar de tudo o que falamos sobre liberdade e democracia, nossas contradições persistem. Nossos fundadores fizeram uma bela constituição inspirada pelo melhor do iluminismo europeu. Mas com uma contradição fundamental: éramos uma economia baseada em trabalho escravo. Lidar com isso tem sido a nossa história. Obama representa a chance de finalmente começarmos a deixar isso para trás. Segundo, tem algo que acontece nos EUA, que inspira o resto do mundo: em tempos de crise eles encontram grandeza. Sempre foi assim, George Washington, Abraham Lincoln, Roosevelt. Os últimos oito anos basicamente foram uma traição da América e seus valores. É isso o Obama, uma afirmação do próprio espírito americano, um belo novo dia.

Não é perigoso tomar um só homem como um novo dia?
O que vale aqui é a demografia: 69% dos jovens votaram no Obama. Gente de mais de 65 anos votou no McCain. Então a pergunta é clara: quer ser parte do futuro ou do passado? Nem os liberais da minha época podiam imaginar que a geração seguinte iria tão longe. Em duas décadas, as mulheres foram da cozinha para a gerência. Em uma geração, os negros foram do barraco para o Country Club. Gays saíram do armário para o altar. Mas há muito, muito a ser feito.

Por exemplo?
Veja, os EUA se tornaram muito rapidamente a maior hegemonia do mundo desde Roma. E mantiveram essa miopia de um gasto absurdo com defesa e jovens que não sabem absolutamente nada sobre o resto do mundo. Uma porcentagem gigante de jovens daqui não sabe colocar o oceano Pacífico no mapa. Recentemente fiquei sabendo que a maior parte dos congressistas americanos não tem nem sequer passaporte! Esse tipo de isolamento é algo que não dá mais para bancar hoje em dia. E o Obama traz também essa possibilidade.

 
 

O que conservam os conservadores nos EUA? Certamente não estão conservando a natureza. Mas acho que precisamos ser cuidadosos na hora de demonizar esse termo. Eu sou conservador de duas maneiras. Não devo um centavo a ninguém. Que é um valor conservador, republicano. E eu acredito em deixar terra para minhas filhas do mesmo jeito que eu herdei do meu pai. Isso é bem conservador.
Ao mesmo tempo esses caras me consideram um doido esquerdista fã do Grateful Dead. Pelo amor de Deus... somos nós os mais protetores e conservadores. Eu respeito valores tradicionais, valores verdadeiros. E não me importa que deus você adora.

Ao contrário, você parece gostar muito que as pessoas adorem outros deuses.
Sim. Porque muito do conflito das culturas tem a ver com a objetificação do outro. E isso não é exclusividade do Ocidente, é bom que se diga.
Quase todos os povos antigos se enxergavam como os únicos humanos. Ainda hoje muita gente vê os povos da Amazônia como selvagens, as culturas da África como primitivas. A nossa grande ilusão é que pelo nosso inegável e tremendo avanço tecnológico e econômico pensamos que outros povos ficaram para trás, ou parados intelectualmente. E nada pode ser mais falso do que isso.

Olha o budismo tibetano, não é uma ciência? O que é a ciência senão a busca da verdade? E o que é o budismo senão 2.500 anos de observação empírica da natureza da mente? Para o budista a evidência científica é a serenidade que alguém atinge seguindo a prática budista. Um monge uma vez me disse: “Nós não acreditamos que vocês foram para a Lua, mas vocês foram. Vocês não acreditam que nós atingimos a iluminação em uma encarnação, mas nós atingimos”.




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