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Ele não explica tudo. Nem pretende. Mas Wade Davis sabe, na pele, do que o mundo é feito. Desde que deixou a casa dos pais na costa oeste do Canadá, no começo dos anos 70, ele nunca teve a pachorra de ficar parado. “Eu queria desesperadamente ter uma vida interessante”, justifica-se. Trinta e tantos anos depois, eis um homem bem-sucedido. Explorador, antropólogo, etnobotânico, escritor, conferencista, fotógrafo, documentarista. Cutucou cantos do planeta que, literalmente, não estavam no mapa. Viveu no gelo, no deserto, em florestas tropicais, montanhas, ilhas e metrópoles. Em uma semana estava recluso na biblioteca de Harvard mergulhado em referências. Na outra, enxotava insetos cáusticos atrás de xamãs na Amazônia. Tudo em nome de uma vocação que se confunde com busca espiritual: trazer a infinita riqueza cultural do mundo aos olhos do Ocidente.
Adequadamente, ele vive em Washington D.C., a capital do grande império. Uma força política e ideológica colossal que se traveste de realidade. Entre os pomposos prédios do poder na Nova Roma, Wade não se ilude. Sabe que, por mais poderosa que sejam, política e economia são apenas cultura. Um conjunto de idéias, puro e simples, apenas mais uma resposta para a pergunta fundamental: nas palavras de dr. Davis, “o que siginifica ser humano?”.
Formado em antropologia e doutorado em etnobotânica (o estudo da relação entre povos e plantas com propriedades medicinais e psicoativas), Wade foi assistente de Richard Evans Schultes, o lendário explorador que “sumiu” na Amazônia por 12 anos e trouxe à tona para o Ocidente nos anos 40 as impensáveis possibilidades das plantas alucinógenas do xamanismo indígena. Foi seu tutor que o encorajou a ir para a floresta – em uma expedição que quase lhe custou a vida. Anos depois, foi Schultes que o convocou para uma viagem que rendeu seu primeiro livro, O arco-íris e a serpente, de 1982.
Em 300 páginas, ele narra sua jornada pelo Haiti, onde descobriu e identificou quimicamente a origem dos zumbis. Os mortos-vivos eram criações reais, pessoas julgadas por sociedades secretas haitianas, vítimas de um potente veneno à base de secreções do peixe baiacu. O feito trouxe respeito ao jovem pesquisador de Harvard, que desde então narra suas explorações mais do ponto de vista de um aluno do que de um professor.
Achatamento global
Dez livros de lá pra cá, quatro deles de fotografia. Wade acaba de lançar um filme em IMAX feito em parceria com Robert Kennedy Jr. sobre a deterioração do Grand Canyon. Também dirige e narra a série de TV da National Geographic Light at The Edge of The World. Mais do que vender uma paisagem exótica e curiosa aos seus espectadores, quer demonstrar que a riqueza da imaginação humana está seriamente ameaçada. “A extinção em massa não é privilégio da biosfera”, diz Wade, “a etnosfera também está em agonia.” Etnosfera, um termo que o próprio cunhou em seu último livro. Um conceito para resumir a rede de linguagem, idéias e crenças que cobre a humanidade.
Trip encontrou com ele em sua ampla casa, um verdadeiro museu de artefatos do mundo todo espalhados entre vastas estantes de livros de toda sorte. Em seu escritório, hoje lotado de obras sobre budismo e escaladas, trabalha duro para acabar seu próximo livro, um projeto de dez anos, sobre as primeiras explorações do Everest, o ambiente budista a que os ingleses foram expostos e o espectro da Primeira Guerra batendo à porta.
Dois dias antes da entrevista, Barack Obama fora eleito presidente dos EUA. Wade ostentava um sorriso de esperança e olheiras de cansaço. No dia anterior festejou... o autodeclarado conservador passou a noite com Bob Weir, vocalista remanescente do Grateful Dead, celebrando a vitória. “Não temos idéia do tamanho da nuvem negra que dissipou”, suspira, enquanto segue na luta para evitar o tão anunciado achatamento do planeta. Porque Wade, e você também, sabe que um mundo achatado, no fim das contas, é mais... chato. |
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