Em 99 começa a agrura das lesões. Você tinha dor no joelho em 98?
Não. Só dores normais, de pancadas etc. Futebol é isso. Dificilmente um jogador entra em campo sem nada, sem um roxo, uma unha arrebentada...

Mas na época do Barça faltou cuidar melhor do joelho?

Talvez. Hoje os preparadores prestam mais atenção ao estilo de cada jogador, às suas necessidades. E eu mesmo aprendi a ver em mim o que preciso fazer, um alongamento, um reforço.

Houve algum de preparação em algum momento para que você tivesse uma lesão tão séria e rara como a do tendão patelar?
Não, tenho certeza que não. Ela aconteceu, foi uma fatalidade que não poderia ter sido evitada. Não foi porque fiquei forte demais ou porque não me cuidei.

Você acompanhava os caras que diziam que você nunca ia voltar?
Acompanhava. Alguns pediram desculpas públicas, como o [médico] Moisés Cohen.

E havia poucos te apoiando na imprensa.
Mas esse pouco me dava ânimo. O que me ajudava mais que tudo era a companhia do meu filho, Ronald, que ainda era pequeno. O que me chateia é a crítica sem fundamento. É como agora: é lógico que estou acima do meu peso. Fiquei dois meses sem poder sair da cama, seis meses sem me exercitar. Como é que não vou ganhar peso? Mas as pessoas na rua dizem: “Você não tá gordo, vamos lá, você vai se recuperar”. É muito bom.

Alguns dizem também que você é “apenas um bom finalizador”...
Como se finalizar fosse fácil... [risos].

E você se considera apenas um bom finalizador? Não acha que as pessoas esquecem de ver suas qualidades técnicas, não só os gols?
Minha trajetória mostra isso. Primeiro, para fazer gol o cara não tem que estar só ali, para empurrar para dentro. Só vi um que fazia isso, o Hugo Sánchez, que fez 38 gols num ano, mas todos com um toque só. Não saía da área, só completava as jogadas. Outra coisa é que a maneira como eu faço as coisas dá a sensação de que é fácil, de que parece fácil. Hoje tem gente que está com o gol aberto para chutar com a esquerda, mas precisa dominar a bola, ajeitar o corpo para chutar com a direita... Finalizar em velocidade não é fácil. Se você vem correndo e driblando, não tem aquele apoio perfeito. O joelho está dobrado, o corpo desequilibrado.

E você não é muito de firula, de enfeite.
Vou dar um exemplo, porque falar de mim mesmo é complicado. Veja o Kaká, ele é o jogador mais moderno que existe. Ele é rápido, é ágil, é alto, é técnico, faz gol e ainda defende. Ele não é de dar pedalada, mas sem driblar o zagueiro ele é capaz de pôr a bola de lado e chutar para o gol, ou ele ganha na velocidade. Ele sabe lidar com o tempo da bola, é objetivo. O Cristiano Ronaldo também é excelente, melhorou quando começou a ir para o gol, mas eu prefiro o Kaká. Ele é mais decisivo. Não perde tempo fazendo jogada na ponta, driblando três e depois cruzando.

Muitos chamam isso de futebol-arte...
Isso é um mito que tem no Brasil. As pessoas não entendem que esse jogo do Kaká é bonito. Um zagueiro pode jogar bonito. Zagueiro que não deixa o atacante jogar também faz arte. O Pelé era objetivo!

Mas o Kaká não tem o drible curto, de salão; é mais da passada larga.
Ele tem isso também, mas não só. Tem vários outros recursos.

Uma firula não ajuda a tirar moral do adversário?
Não acredito. É tudo tão rápido, tão intenso.

Quando o Felipão deu um telefonema e disse: “Ronaldo, quero você na Copa de 2002”?
O dr. Runco, que para mim é o melhor médico do Brasil, me acompanhou o tempo todo. Aí o Felipão me deu aquela oportunidade contra a Iugoslávia. Fiz um bom fim de temporada na Itália e veio a convocação final.

O Rivaldo foi muito importante naquela Copa.
Foi, e o Ronaldinho também jogou muito, muito. Buscou bola no meio-campo, correu pra caramba. Aquele time era muito bom, tudo foi praticamente perfeito.

Qual foi o maior jogador com quem você jogou? O Zidane?
É difícil... Na posição dele, sem dúvida foi o melhor. Mas teve o Luc Nilis, teve o Romário, que foi bom pra cacete. Rivaldo. Maldini, na posição dele. Pô, o Roberto Carlos.

Quem são seus amigos verdadeiros?
No futebol? O Zidane é um, o Roberto Carlos outro. Dida, Adriano, Figo... Felizmente tenho bons amigos. Fora do futebol, tenho alguns de longa data.

É comum você dizer para os amigos ao telefone “Fica com Deus”. Você é religioso?
Sou, sim. Não sou de ir à missa ou de ficar rezando, mas acredito em Deus, sou católico.



 
 
 
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