O PEIDADOR
Quando abriu, na década de 70, no Rio, uma casa noturna com Bôscoli,
o nome sugerido por Nelson Motta foi alegre e empolgadamente aceito:
Monsieur Pujol. Homenagem ao artista francês de fins do século 19 que,
conta a lenda, fazia grandes performances no palco utilizando-se de seu
principal instrumento: o fiofó. Sempre de calça com um furo nos fundi-
lhos, expelindo gases que nasceram para o sucesso, Pujol interpretava
músicas, fazia imitações, levava o público ao delírio.
Boa metáfora para a produção da dupla Miéle & Bôscoli: sempre havia
quem achasse genial, sempre havia quem se sentisse ofendido, mas ninguém
nunca duvidou da ousadia, criatividade e facilidade para atrair as
atenções. Juntos, Miéle & Bôscoli vestiram Roberto Carlos de palhaço,
fizeram Elis Regina sapatear, assustaram a tradição com programas de
TV modernistas, colocaram em movimento alguns dos maiores músicos
de seu tempo, ajudaram a inventar a noite brasileira e o formato dos
grandes espetáculos musicais como os conhecemos hoje.
Mas, antes, tiveram que se virar nos 30: “Os primeiros shows no Beco
das Garrafas, para 50 ou 60 pessoas, nós iluminávamos com lâmpada de
100 velas. Fazíamos um tubo de luz com uma cartolina e colocávamos
o interruptor em uma caixa de sapatos. Se o artista se mexesse muito,
a gente iluminava com uma lanterna. Em um show do Simonal com a
Darlene Glória, eu coloquei uma cadeira de juiz de tênis num canto pra
ela sentar em uma cena. Como a gente fazia espetáculo naquela época
com prego e cartolina? Tinha que fazer”.
Como todo mundo sabe, o perrengue é o melhor amigo da criatividade.
Quarenta anos depois, temos sound designers, light designers,
roadies, técnicos de som vindos do Japão e toalhas brancas a granel.
Miéle foi vivendo as mudanças: dos 50 lugares do Beco aos milhares
nas grandes casas; de novatos a estrelas; do 78 rotações pro LP, do LP
pro CD, a morte do CD.
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| Miéle enverga o smoking e a gravata-
borboleta, seu figurino mais famoso, que mistura
musical americano e malandragem brasileira |
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“Um dia quis comprar um disco do Frank Sinatra e fui à Hi-Fi da rua
Augusta, que era uma loja importante”, exemplifica com mais um causo.
“Quando eu disse que queria ver uns discos do Sinatra, o vendedor fez
uma cara de dó pra mim, como quem diz: ‘Coitado, ele ainda não sabe o
que aconteceu’. Eu fiquei puto com o desdém do cara, ‘vai dizer que não
existe mais disco do Frank Sinatra?’. E ele explicou: ‘Não, Miéle, é que não
existe mais disco’. Saí de São Paulo pra fazer show numa sexta-feira, na
segunda não tinha mais vinil. Impressionante a mudança das coisas, acho
curioso passar por isso por causa da minha idade.
”Em algumas horas de papo, é o terceiro ou quarto comentário sobre
idade. Então, depois de tanta história, insisto no assunto: “O que o
mantém aqui até hoje?”. “Gosto de lembrar de tudo que já fiz, mas faço
questão de sempre falar sobre o que ainda vou fazer”, dá a letra. “Isso é
rejuvenescedor, uma forma de não me entregar à idade. Quero saber o
que vou fazer daqui pra frente.”
Entre planos de atuar mais (novos episódios da série Mandrake, em
que ele fez parte do elenco, começam a ser filmados no ano que vem) e
fazer mais shows (com Roberto Menescal e Wanda Sá, com Simoninha e
participando do cruzeiro de Roberto Carlos), ele fala ainda em reinaugurar
o Beco das Garrafas, criar novas séries na TV e organizar nova montagem
da Sinfonia do Rio de Janeiro, de Tom Jobim e Billy Blanco.
Agora, tanto já feito e por fazer, do que mais
se orgulha em tudo o que fez? “Provavelmente
de não ter feito muitos inimigos”, sem hesitar.
“A amizade parece um animal em extinção no
mundo de hoje.”
E aí, enquanto educadamente põe jornalista
e gravador pra fora, ainda comenta: “Pena que
tenho jantar marcado para hoje à noite, senão
abriríamos uma garrafa e continuaríamos o
papo”. Naturalmente, estava apenas sendo
educado. Mas, enquanto ainda penso em descobrir
o segredo de tanto tempo fazendo coisas
divertidas ao lado de gente legal, me pego
pensando: pena mesmo. |