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| Acima à esq., com a musa Sandra Bréa no programa
Sexta Super, nos anos 70. Á dir.,
no primeiro Gala Gay, no Hotel Nacional,
com a cantora Liza Minelli. |
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Pleno fim de tarde de um sábado de sol e Luiz Carlos Miéle está impecavelmente
vestido de smoking e gravata-borboleta, sapato brilhante, chapéu
de palha na mão. É seu visual mais famoso, reminiscente de antigos musicais
americanos, sutilmente adaptado à malandragem brasileira. Batendo
levemente o pé no chão em movimentos elementares de sapateado, ele
aguarda o sinal do fotógrafo avisando que vai bater nova chapa. De repente,
na hora certa, entrega um sorriso exato e poses ensaiadas, com perfeita
naturalidade. Miéle conhece os passos de dança do pop.
Pela sua casa no bairro carioca de São Conrado, nas paredes, em
mesas, sobre estantes, há todo tipo de coisa: uma Marilyn de Andy
Warhol, uma espada samurai, um espelho no qual está escrito “happy
birthday” com batom, elefantes de porcelana, um gato persa chamado
Garfield, cachorros, montes de fotos que parecem não ser olhadas há
tempo, com Miéle ao lado de Liza Minnelli, Pelé e dezenas de pessoas
com pinta de importantes. E o melhor de tudo: ao lado da piscina, no
deck de madeira, uma estátua dele mesmo em pose bon-vivant.
Mementos de 70 anos e quatro meses de uma vida bem vivida; espetáculos,
programas, noites, amigos, mulheres, drinques e histórias uma após
a outra. Miéle é figura em extinção, daquelas essenciais para a existência
da boemia, do bom humor, da cultura pop brasileira, da qual é espécie de
sobrevivente. O que faz de Miéle, quase seis décadas de vida profissional,
uma figura que vive até hoje no imaginário popular?
“Recentemente fui a um evento e encontrei vários amigos de outros tempos.
Muitos sentadinhos, de bengala, a perigo. E vi dois ou três bandidos
em plena forma! Então me convenci de que o pecado favorece a preservação
da juventude.
”
Ele está brincando, mas não muito: Miéle sempre foi um vigoroso adepto
de uma boa dose de irresponsabilidade – ou pelo menos uma saudável
anarquia. Há alguns anos, caiu da varanda de sua casa. Cinco metros de altura,
hospital, pontos na cabeça, rótula fraturada. Lição aprendida? Uísque
faz mal à rótula. Miéle achou o segredo do sucesso e a fonte da juventude:
dar certo é importante, mas essencial é se divertir.
E ele se divertiu. Homem da noite, humorista, contador de histórias, diretor
de espetáculos e de programas de TV e, até, cantor e ator. Reuniões? As
melhores conversas aconteceram em madrugadas. Escritório? As melhores
idéias vieram nas mesas do bar. Profissionais? Os melhores trabalhos foram
feitos com amigos – que, não coincidentemente,
eram os melhores profissionais disponíveis.
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NA HORA CERTA
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| Acima, show com Elis Regina no Teatro da Praia |
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O talento de Miéle de viver o momento certo
na hora certa, e melhorar o momento um
pouquinho mais, começou em casa, filho que
era de uma cantora e atriz da rádio Excelsior,
em São Paulo. “Foi tudo meio acidental”, vaga
ele pelas memórias. “Eu era péssimo aluno e
minha mãe queria que eu fizesse algo. Um dia,
ela me levou pra participar de um programa
na rádio, porque o garoto que ia fazer o papel
medrou. Eu tinha 11 pra 12 anos e era cara-depau,
já era engraçado ou pretendia ser.
Depois minha mãe foi contratada pela rádio Tupi e me
levou junto e aí chegou a televisão.”
Naquele novo formato de linguagem que era
a TV, foi fazendo de tudo: assistente, locutor,
diretor. “Não havia escola, ninguém abriu um
livro pra ler como é que faz. Ninguém aprendeu
televisão no Brasil a não ser fazendo”, diz.
Numa dessas, conheceu Ronaldo Bôscoli,
figura-chave da bossa nova. “Eu trabalhava na
TV Continental e o chamei pra primeira entrevista
com o pessoal da bossa que houve na TV”,
conta Miéle, orgulhoso. “Depois ele me chamou
pra ajudar em um dos primeiros shows de bossa
nova, a Noite do Amor, do Sorriso e da Flor.
Mas eu não cheguei a tempo de dar a força, só
fui lá e entrei no meio pra assistir.”
Entre um primo diretor de teatro que o viciou
em cinema, uma prima jornalista que o viciou
em jazz e o intensivo de bossa nova de Bôscoli,
Miéle descobriu mais uma vocação: diretor de
programas musicais na TV e de espetáculos na
noite. Ele conta: “Um dia eu e o Ronaldo fomos
parar no Beco das Garrafas, onde tocavam os
principais músicos, pra dirigir o primeiro show
da vida da gente, que era o Sergio Mendes”.
Do Beco, foram subindo as apostas e os
ganhos acompanharam: em pouco tempo
dirigiam espetáculos dos maiores pop stars
brasileiros, de Roberto Carlos a Elis Regina e
Wilson Simonal. Na televisão, criavam programas
de arte, inspirados nos melhores filmes
americanos. “O que eu via no cinema tentava
aplicar na TV”, contextualiza. “Quando comecei
a dirigir, tentei contar histórias com a
câmera, e acho que consegui. Eu e o Bôscoli
fizemos programas muito diferenciados pra
época, muitas vezes ganhamos prêmios. Éramos
considerados os garotos espertos com
umas idéias novas. A gente se divertia muito.”
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