Se parar pra pensar,
dá uma canseira que não tem fim. Ao
deparar com a máquina pública, qualquer
cidadão de bem vê ali, como quem encara
uma enorme geringonça, que aquilo não
vai funcionar. É muita gente, é muita
coisa, é muito papel, é muita mesa
de madeira compensada marrom, são muitas vias
(em folhas amarelas, brancas e verde-água),
e sempre tem ali no canto da sala uma infiltração
com mofo num pinga-pinga deprimente. Não vai
dar certo, talvez nunca tenha dado, suspira já cansado
de pensar no tamanho da encrenca o pacato cidadão.
Para dar conta de tanta conta, e da máquina, o Estado pega firme. Só os
Estados e municípios arrecadaram em maio quase R$ 50 bilhões. Em
2008, já foram R$ 268 bilhões. Mas não há dinheiro
que dê conta do tamanho da geringonça. Para fechar o caixa, o governo
ainda pegou algum emprestado na praça e pagou só de juros em março
a dinheirama de R$ 8 bilhões. Resultado: paralisia crônica e irrestrita.
Mas algo novo parece estar, aos poucos, chegando à política brasileira.
Duas décadas de democracia fizeram o político brasileiro perceber
que o resultado de sua administração é crucial para seu
futuro político. Velhos jargões do tipo “rouba, mas faz” caíram
em desuso. As palavras de ordem agora são “choque de gestão” ou “administração
de resultados”.
Seria pura demagogia eleitoral não
fosse a resposta da sociedade civil aos novos ventos. Empresários de todas
as partes começaram a se organizar no intuito de ajudar a administração
pública no desafio dantesco de colocar a casa em ordem. E não é por
bondade não; os empresários sabem muito bem que um Estado mais
eficiente vai ajudar, e muito, seus negócios. Com uma máquina enxuta
e em ordem, o país pode crescer, e os empresários têm todo
o interesse nisso. Esse pragmatismo tão típico da esfera privada
é, sem dúvida, o motor da ação e evita que fique
apenas no diz-que-me-diz-que de alguns governantes. Mas não há dúvida
de que muitos empresários agem por puro sentimento cívico, algo
muito fora de moda nesses tempos. Mas deixe estar esse papo e vejamos algumas
iniciativas.
Brasil competitivo
Um dos maiores patronos desse tipo de ação é,
sem dúvida, Jorge Gerdau. Ele é fundador
e presidente do Movimento Brasil Competitivo, uma
associação que reúne sob seu
guarda-chuva pesos pesados do empresariado brasileiro,
como Carlos Alberto Sucupira (um dos controladores
da Inbev), Gilberto Sayão (sócio do
banco UBS Pactual) e Olavo Monteiro de Carvalho (presidente
do conselho de administração do grupo
Monteiro Aranha). Entre as empresas envolvidas, estão
Ford, Fiat, Furnas, Eletronorte, GE, Natura, Odebrecht,
Xerox e Suzano, além da própria Gerdau.
A agremiação patrocina projetos de
melhoria na gestão pública em praticamente
todo o país e vem colhendo ótimos resultados.
Tudo começou em Minas Gerais em 2003, no início
do governo Aécio Neves, e depois se espalhou
por outros nove Estados. O foco desses convênios
visa atacar basicamente os problemas crônicos
que travam o poder público, principalmente
no seu aspecto financeiro. Aumento de receitas, melhores
técnicas administrativas e redução
de gastos. Mas não se limita ao bê-á-bá das
finanças, não. Muitas vezes coloca
o dedo na ferida e vai até áreas que
são verdadeiras celeumas.
Um bom exemplo foi a parceria com o governo do
Rio de Janeiro na área de segurança. Ao
implementar a terceirização da manutenção
da frota, houve uma economia de R$ 9 milhões,
além da liberação para a ativa
de cerca de 300 soldados que antes ficavam com graxa
na mão nas oficinas da corporação – realidade
retratada no filme Tropa de elite.
O convênio se deu através da contratação
de uma consultoria especializada. No caso, a INDG,
do professor Vicente Falconi. Por meio de um levantamento
detalhado da estrutura da máquina, ações
pontuais são implementadas, e metas, estabelecidas.
|