Não existe comprovação genética ou biológica que permita afirmar que a violência faz parte da natureza humana. É possível dizer que ela um é fenômeno construído culturalmente. Violência pode e deve ser erradicada. Qual o antídoto? Educação, livro e cultura.
Depois de 31 anos e 10 meses de prisão (experiência retratada no livro Memórias de um sobrevivente) e atualmente professor de oficinas de escrita e literatura (portanto, uma prova dos benefícios da educação aos presos), fui escalado para tentar explicar como o saber se infiltra e se multiplica em um ambiente criado para impedir a circulação de tudo.

São 713 salas de aula espalhadas entre 112 unidades prisionais de São Paulo, divididas em:
Para responder à questão, procurei em primeiro lugar José Adão Neres Jesus, gerente regional da Funap (Fundação Prof. Manoel Pedro Pimentel) na região de Sorocaba. Órgão vinculado à Secretaria dos Assuntos Penitenciários (SAP), a Funap é responsável pela implantação de programas de educação, trabalho e formação profissional nas unidades prisionais do Estado de São Paulo.
Na penitenciária Dr. Antonio de Souza Neto, Adão cita o educador Paulo Freire para responder à pergunta sobre a infiltração do saber em presídios. “Não sei se é possível educação na prisão. Mas o homem é o único ser capaz de encontrar saídas, mesmo nas piores circunstâncias.” Dali para a frente, ele começa a mostrar as saídas encontradas por esse homem aprisionado.
Adão afirma, com todas as letras, que o quadro de professores presos com os quais trabalha é muito superior, em termos de aplicação e comprometimento com a tarefa de educar, ao quadro de professores do Estado. E salienta: “E olha que eu sou professor do Estado!”. Segundo ele, os professores presos vivem uma cultura de edificação sem fim. Estão sempre em preparação, sem permitir defasagens.
Os funcionários da Funap, como ele, são intermediários entre o mundo social e o mundo prisional. São eles que rompem as muralhas e trazem o livro, o conhecimento e a informação, para, junto com os professores presos, difundirem o saber. Perguntado sobre o porquê de tamanho esforço em ensinar o preso a encontrar seu papel de educador, ele respondeu com simplicidade: “Para tornar o ser humano mais digno”.

 

| 01 | 02 |
 
 
comente