Glauber Apolônio da Silva tinha tudo resolvido:
seria jogador de futebol. Atacante da Ponte Preta
do Poço Doce, na periferia de Paracuru, sonhava
em vestir a camisa do Fortaleza, time do coração.
Leandro, o irmão mais velho, sempre gostou
de dançar. “Quando ele saía na
rua com aquele shortinho de dança, todos os
meus colegas chamavam ele de gay. Não vou
mentir, também chamava. Agora, uso um short
menor ainda”, diverte-se ao lembrar. Hoje,
ele tem tudo resolvido de novo: quer ser bailarino.
Em 2007, a escola recebeu uma bolsa de monitoria,
no valor de um salário mínimo. Leandro
era o mais indicado – além de aluno
aplicado, parte de sua casa havia caído com
as chuvas, a família de 14 pessoas se apertava
em dois cômodos. Acabara, porém, de
completar a maioridade, e isso vetava sua participação. Único
a preencher os requisitos para a bolsa, o irmão
Glauber tinha medo de Flávio Sampaio. “Achava
que quem fazia balé virava gay”, resume.
Flávio recorda-se de visitar o garoto várias
vezes e vê-lo fugir disparado pelos fundos
da casa. Dona Francisca, a avó cearense, convocou
reunião familiar para convencê-lo de
que não podia perder a oportunidade. No dia
seguinte, o levava pelo braço até a
escola de dança para aceitar a bolsa.
Depois de um ano e meio, Glauber já faz parte
da turma mais avançada da escola e aguarda
setembro, data da primeira apresentação
na cidade. Com o salário, levantou uma casa
nova para a família. “Logo vou colocar
uma porta com fechadura para entregar a chave na
mão da minha mãe e falar: ‘Toma, é sua’.” Ele
ainda joga bola aos domingos, porque não consegue
ficar parado, mas pensa em parar, pois uma contusão
o obrigaria a perder a aula de balé na segunda.

Uma das primeiras moradoras do assentamento sem-terra
de Nova Esperança, criado há dez anos
em um dos bairros mais pobres de Paracuru, Márcia
Maria Freires tinha o sonho de ser bailarina na adolescência. “Sempre
achei bonito, mas na minha época não
havia oportunidade”, diz. Tornou-se professora
de educação física da rede pública.
Com o salário de R$ 700, ergueu uma casa e
sustenta sozinha os três filhos.
Hoje, Márcia vê seu antigo sonho ser realizado por Myriam, sua filha
do meio, de 13 anos. Ela começou as aulas de balé na filial da
escola criada no assentamento, uma unidade voltada para a introdução à dança,
mais livre e popular. O talento demonstrado logo a levou para a escola principal,
onde o ensino é totalmente direcionado ao balé clássico. “Comecei
a fazer por vontade da minha mãe, mas gostei muito. Agora quero ser bailarina...
ou veterinária”, ri com a dúvida própria da idade. “É que
eu gosto muito de bicho também.”
Hoje, Nova Esperança já não lembra um assentamento. Grande
parte dos terrenos já tem casa de alvenaria, e alguma infra-estrutura
urbana começa a chegar. Myriam é um bom exemplo das melhorias trazidas
ao bairro – e da inteligência da mãe para superar as adversidades.
Boa aluna na escola, ela tem um quarto só seu, com computador e conexão
rápida à internet. Agora só falta chegar a apresentação
de setembro para completar a felicidade da mãe. “Não vejo
a hora”, comenta Márcia.

Balé ainda pode ser novidade em Paracuru,
mas a cidade já é conhecida há tempos
como um paraíso do surf brasileiro. Foi capa
da edição de abril de 1977 da revista
Brasil Surf, a primeira exclusivamente dedicada ao
tema por aqui. Alberto Pecegueiro, editor da publicação
(e hoje diretor-geral da Globosat), gostou tanto
do lugar que fez o roteiro, no ano seguinte, do primeiro
documentário brasileiro de esportes radicais,
Nas ondas do surf. O diretor foi Lívio Bruni
Filho (que nos anos 90 foi preso por tráfico
de drogas). O filme registra figuras lendárias
em ação, como Michael Ho, Gerry Lopez,
além dos brasileiros Bocão e Pepê.
Essa relação da cidad e com o surf
rendeu um fruto muito especial anos depois. Silvana
Lima, surfista que terminou o WCT/2007 como terceira
do ranking mundial, é natural da cidade. A
garota de origem pobre, que começou surfando
em tábuas encontradas na praia, venceu, no
início de julho, a etapa da África
do Sul do Mundial, obtendo a única nota dez
do torneio.
Nos últimos anos, Paracuru também ficou
conhecida como um dos melhores pontos do mundo para
o kitesurf, graças aos ventos poderosos que
passam por ali quase o ano todo e que atraem europeus
e paulistas a praias como a do Roncador e a da Bica.
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