BAIXO CLERO
Daí em diante sua carreira teve ascensão
meteórica. Apesar de ter entrado oficialmente
no curso com seis meses de atraso em relação
aos colegas, Flávio terminou a formação
no ano seguinte como melhor aluno da turma, sem experiência
anterior em balé. O prêmio foi um mês
de workshops no Municipal do Rio. No ano seguinte,
trabalhou na Cia. do Teatro Guaíra, de Curitiba,
até uma noite fria de sábado de 1976,
em São Paulo, onde o grupo encerrava uma turnê.
No fim do espetáculo, a maioria dos colegas
rumou para a rodoviária e, de lá, para
o Rio de Janeiro: no domingo haveria prova para o
corpo de balé do Teatro Municipal. Flávio
Sampaio tinha decidido não fazê-la.
Apesar do rápido sucesso, era consciente de
que havia começado tarde na dança,
a concorrência era fortíssima, enfim,
o esforço não valia a pena. Uma amiga
o convenceu do contrário e ele embarcou durante
a madrugada para a capital fluminense.
O corpo de balé do Municipal não se
renovava havia 15 anos, a quantidade de bailarinos
experientes concorrendo era imensa. Entre os únicos
três aprovados estavam Ana Botafogo e um cearense
de Paracuru.
Dos seus 12 anos de experiência como bailarino,
extraiu algumas lições sobre o que
não fazer em sala de aula, como professor. “Em
12 anos, fui corrigido apenas três vezes”,
ele comenta sobre a pouca atenção recebida. “Havia
uma separação muito clara lá dentro,
entre o que chamávamos de alto e baixo clero.”
ARTE CRUEL
Os alunos do “professor Flávio” têm
uma rotina puxada. Saem de casa às cinco da
manhã para voltar só no começo
da noite. Quem mora nas comunidades mais distantes
chega a rodar uma hora e meia no ônibus da
prefeitura, que garante o transporte das crianças
de casa até a escola formal e a de dança.
Ainda recebem refeição e uniforme de
dança completo. O respeito que demonstram
pelo espaço da Escola de Dança de Paracuru é notável.
Na última seleção, em 2006,
a escola recebeu 984 inscrições para
30 vagas, que acabaram virando 54. “Os talentos
eram tantos que não tive como dispensar alguns”,
Flávio reconhece, quase envergonhado. “Na
minha primeira experiência lecionando para
crianças, quase enlouqueci. Não havia
tempo para corrigir todas. Um superior me aconselhou: ‘Separe
os cinco melhores e demonstre que você fez
seu trabalho. Esqueça o resto’. Eu não
consigo separar os cinco melhores.”
Flávio sabe que, ali em Paracuru, ele não
pode separar os melhores. “O balé é uma
atividade muito cruel. O início é penoso,
com aulas no chão, o corpo vai sendo esculpido
mesmo, pois nada disso que fazemos é natural.
Você se esforça, sente muita dor e está sempre
errado. A tradição dos mestres é não
premiar muito esse esforço. Sou contra isso.”
A crueldade da própria arte ele experimentou
num ensaio quando já era o terceiro bailarino
do Municipal do Rio. Levantou uma colega que se desequilibrou
no alto e o atirou de costas ao chão. Por
lá ficou. Uma hérnia de disco gravíssima
o obrigou a ficar de cama por meses, sem se mexer.
Após cirurgias e muita fisioterapia, tentou
um retorno, frustrado por dores incessantes. Com
a impossibilidade de fazer o que mais gostava, no
auge da vida profissional, Flávio resolveu
arriscar: prestou a prova para mestre de balé do
Municipal, algo que muitos consideravam inviável. “É coisa
para os 50, 60 anos”, reconhece. Aos 39, tornou-se
professor de balé clássico da melhor
escola do país. Novamente, porém, entrou
em confronto com a tradição. “Me
disseram que os alunos não me respeitariam,
por ser muito jovem. A primeira vez que lecionei
balé clássico foi na Europa, em Munique,
a convite de uma amiga. Depois fui para Varsóvia,
um dos centros mais importantes do mundo, porque é totalmente
vinculado à escola russa, a melhor.” Só depois
da experiência no exterior é que Flávio
Sampaio foi autorizado a dar aula no Municipal do
Rio, onde trabalhou até se aposentar, em 1999.

ESCOLA SIM, ONG NÃO
Os jovens que bateram à porta de Flávio,
anos atrás, hoje são dançarinos
profissionais da Companhia de Dança de Paracuru
e professores dos novos alunos. Recebem R$ 200 por
mês. Desde janeiro de 2008, esse dinheiro tem
saído da aposentadoria de Flávio Sampaio. “Nós
perdemos a renovação do patrocínio
por falhas na entrega do projeto. Eu não podia
deixar os monitores sem salário. Um deles
vai ser pai, logo.” Enquanto a renovação
não sai, Sampaio mantém toda a estrutura
por conta própria, assim como no início
de tudo, quase dez anos atrás. “Não
sinto que estou fazendo um projeto social”,
faz questão de afirmar. “Sou obrigado
a fazer as vezes de um, mas, essencialmente, sou
um professor de balé. É engraçado,
as pessoas da cidade comentavam que eu estaria armando
minha candidatura, porque vendi um apartamento para
construir essa casa onde estamos hoje. Ainda é algo
que persiste na mentalidade daqui: quem faz alguma
coisa coletiva está sempre esperando um retorno
político ou econômico.”
Lucas, aluno do terceiro ano de balé, passou
dois meses sem ir às aulas. O pai proibiu,
pois os amigos mangavam dele: “O moleque lá era
boiola para dançar balé?”. Depois
de muita insistência do próprio garoto
e de uma conversa com o professor, o pai deixou o
filho retornar. Flávio não se ilude: “Eu
não tenho a pretensão de achar que
nosso trabalho tem o poder de fazer esses pais, que
são pescadores, agricultores, perderem o preconceito,
algo arraigado neles. Eu acho que num lugar tão
carente nossa escola é uma ponte para novas
oportunidades. Os pais ouvem coisas positivas daqui,
vêem crianças com auto-estima elevada,
a cidade as elogia pela educação. E
os meninos, então? São os maiores namoradores,
dançam como ninguém nos forrós
de sábado, têm um porte que os outros
não têm. Ter a segurança de que
seu filho terá mais perspectivas na vida supera
qualquer preconceito”.
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