Flávio Sampaio poderia ter uma aposentadoria tranqüila depois de se consagrar como bailarino e professor de algumas das principais companhias do Brasil e do mundo. Mas decidiu voltar a sua terra natal, a pequena Paracuru (CE), para montar a segunda maior escola de balé masculino do país e desafiar o velho preconceito de que dança não é coisa de homem

Meninas sentadas no chão conversam baixinho em grupos de três ou quatro. Cabelos impecavelmente presos em coques, tranças e rabos-de-cavalo. Os meninos chegam, chamando a atenção. Primeiro, pela quantidade; só essa turma deve ter mais de 30 alunos, entre 10 e 15 anos de idade. Depois, pela postura, absolutamente ereta, e pelo silêncio. O uniforme branco com a inscrição Escola de Dança de Paracuru contrasta intensamente com a pele morena da maioria. Estamos em uma pequena cidade da costa oeste do Ceará, onde o sol brilha forte. Um paraíso do surf no Nordeste brasileiro, com queda para uma arte um tanto improvável para a região: o balé clássico.
A responsabilidade é de Flávio Sampaio, ex-bailarino e professor do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, da escola do Balé Bolshoi no Brasil e de uma série de outras em centros importantes da dança pelo mundo, como Paris e Varsóvia. Filho da terra, Sampaio retornou das andanças para formar bailarinos por ali mesmo.

PRAIA, PRIMEIRO PALCO
Com 6 anos de idade, sem nunca ter visto TV nem sequer a foto de um bailarino em ação, Flávio se lembra de ensaiar movimentos de balé nas areias da praia da Bica. Hoje, aos 56, espera ansioso o fim de 2008, quando formará a primeira turma de bailarinos de sua escola. Além dela, Sampaio dirige a Companhia de Dança de Paracuru, um grupo profissional que representa sua tentativa de evitar que seus alunos tenham obrigatoriamente de ir embora como ele.
Bailarinos costumam dizer que um momento-chave no aprendizado da arte é o “vôo”, quando conseguem sustentar o próprio peso no ar. Flávio Sampaio sabe bem que se tornar bailarino implica outros “vôos”, especialmente se você for de uma cidade pequena e improvável para essa arte. “Eles se tornam muito diferentes dos pais, do resto da família, dos amigos.”
Com 112 meninos num total de 195 alunos, a Escola de Dança de Paracuru é a segunda do Brasil em balé masculino – a primeira é a do Balé Bolshoi, em Joinville. “O Ceará gera excelentes bailarinos. Mas o que se espera do menino daqui quando cresce? Que ajude o pai na roça e ainda estude uma profissão que garanta emprego formal. Eles vêm aqui para serem bailarinos! Têm aulas de história da arte, de ética. Essas novidades não representam só algo positivo, provocam choques muito intensos às vezes.” Dentre a turma dos formandos, há várias promessas. Joab Taffarel, de 18 anos, chamou a atenção da coreógrafa Deborah Colker e deve seguir para sua companhia de dança assim que terminar a formação. Esse já aprendeu a voar.

DO FORRÓ AO BALÉ
Flávio Sampaio já era uma espécie de figura mítica em Paracuru quando um grupo de jovens bateu à porta da casa de sua mãe, na praça da matriz, pedindo auxílio. “Na verdade, nós tínhamos medo dele. Sabíamos que ele tinha sido bailarino, já tinha vivido no exterior. Mas não queríamos nada com balé, apenas aprender forró”, explica Alexandro Santiago, hoje com 24 anos, trabalhando como professor na escola e integrante da Companhia de Dança.
Na época, Flávio passava férias na terra natal. “Eu respondi: ‘Forró não forma ninguém em dança, vocês não querem aprender algo mais?’.” Como não podia assumir as aulas, designou um assistente para ir a Paracuru nos fins de semana, gastando com isso R$ 100 por mês do próprio bolso. “A primeira mudança veio com o street dance, uns seis meses depois.
Sem que percebessem, introduzi elementos de jazz e dança contemporânea.
Aos poucos foram tomando gosto pela pesquisa e, quando deram conta, já estavam querendo o balé”, recorda.

ERA DE AQUARIUS
Flávio Sampaio nasceu para dançar. Mesmo que em Paracuru, na infância, não houvesse um professor de forró que fosse. Mesmo que a família o mandasse para o Colégio Militar, em Fortaleza. O que poderia afastá-lo do sonho foi justamente o que lhe deu a oportunidade de vivê-lo.
“Passei os anos de Colégio Militar fazendo cursos de teatro, cinema e dança, escondido da família. Procurei me engajar no mundo artístico. Assisti a Hair, a montagem clássica com a Sônia Braga. Esse contato direto com arte foi essencial para minha definição.” No fim dos anos 60, com os primeiros trabalhos, não pôde mais esconder da família que desejava viver da arte. “Na minha casa, não tinha tanto preconceito. Eles pensavam assim: ‘Como você vai sobreviver no balé? Que futuro você vai ter?’ Agora de Paracuru, sim, sofri preconceito.”
Com a família a questão logo se resolveu, a irmã e atual braço direito na administração da Escola de Dança, Leda Sampaio, com quem morava em Fortaleza, foi a primeira a saber e tratou de resolver as coisas em casa. Com a cidade, a relação não se resolveu muito bem até os dias de hoje. “Me sinto um pouco estrangeiro aqui. Passei muito tempo fora, as pessoas faziam uma imagem de mim, comentavam. Agora vivo aqui, mas prefiro não ter vida social. Isso deve contribuir para que se mantenha um certo mistério quanto à minha figura.”

PALCO ILUMINADO
No início dos anos 70, Flávio perseguia, sem muito êxito, seu objetivo principal, dançar balé. A chance apareceu em janeiro de 1974, num curso especial que o diretor do Municipal do Rio de Janeiro, Dennis Grey, fora convidado a dar em Fortaleza, e Flávio fazia como ouvinte. Acompanhou meses de curso incógnito, até um dia, quando chegou mais cedo, encontrou a porta do teatro aberta e o palco, lá no fundo, iluminado. Ninguém por perto, nada além de uma bela música. Subiu no palco e executou tudo que aprendera observando. O teatro, porém, não estava totalmente vazio, o próprio professor observava tudo do escuro. Grey se aproximou de um lívido e envergonhado futuro parceiro e disse apenas: “Venha amanhã que você vai aprender”.

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