|
|
|
 |
No bico do corvo
Só mais quatro pessoas podem entender essas
duas. As akuntsu clicadas pelo fotógrafo Araquém
Alcântara fazem parte do grupo de seis indivíduos
que restaram de seu povo, todos na região
de Corumbiara, sul de Rondônia. Todos os outros índios
akuntsu morreram por doenças ou foram abatidos
a tiros. “Os dois homens restantes têm
marcas de bala no corpo”, diz o antropólogo
Adelino Rocha, que já esteve quatro vezes
na região. “Os akuntsu estão
em uma situação delicadíssima,
e sofrem risco real de desaparecer em pouco tempo”,
alerta Aryon Rodrigues, professor da UnB que dedicou
60 dos seus 83 anos à pesquisa de línguas
indígenas. E a etnia está longe de
ser uma exceção nesse bico do corvo
cultural. Na área em que vivem, próxima
ao rio Omoré, estão também os
dois últimos remanescentes do povo Kanoê,
que também tem língua própria.
O decano lingüista dá o tamanho da tragédia: “Quando
os portugueses chegaram ao Brasil, havia cerca de
1.200 línguas indígenas. Hoje não
passam de 180, e esse número continua diminuindo.
E não há como salvar o que já foi,
não há registro algum da maioria das
línguas já extintas, e de outras tantas
resta apenas uma lista de palavras” |
| |
 |
|
A última badalada
“É muito raro um relógio que não tenha conserto.” Pelo
menos dos antigos. Quem garante é Paulo Bafá, que trabalha com
carrilhões (de pedestal ou parede), relógios de mesa, de bolso
e cucos há mais de 50 anos. Hoje, aos 62, o paranaense tem uma oficina
em sua casa, em Carapicuíba (Grande São Paulo), e não viu
o movimento cair nos últimos anos. “Sempre tem serviço. As
pessoas herdam os relógios dos pais e avós e querem manter funcionando.” Paulo
aprendeu o ofício sozinho, quando era funcionário de uma antiga
relojoaria na Barão de Itapetininga, no centro paulistano, e, apesar da
clientela fiel, o relojoeiro sabe que sua especialização é incomum.
E não será pela sua família que irá perpetuar-se. “Minha
mulher ajuda com os clientes, mas não faz consertos. Até tentei
ensinar meu filho, mas ele não quis. Hoje é formado em engenharia
da computação, e minha filha, em administração de
empresas.”
|
| |
| TRIP + |
 |
Sem palavras
Esse é Julaparé, índio Umutina. Por 20 anos, foi o único falante de sua língua-mãe, o Umutina. Para o drama ficar mais claro: é como se, por duas décadas, você fosse a única pessoa no mundo que falasse português. Julaparé passou a vida entre os rios Paraguai e Bugres, na região do município de Barra dos Bugres, 200 quilômetros acima de Cuiabá, capital do Mato Grosso, estado que há anos lidera o ranking de desmatamento da Amazônia. Julaparé morreu em 2005, possivelmente de ataque cardíaco, com idade aproximada de 80 anos. Com ele, morreu a língua Umutina --ainda há índios da etnia na região, mas que não aprenderam o idioma original. Era o último falante. E seu caso, infelizmente, não é único. Há centenas de línguas indígenas brasileiras mortas, e outras estão pela bola sete. É o caso dos Barés, com apenas dois falantes na fronteira do Brasil com a Venezuela; dos Kanoês, também com dois falantes em Rondônia, e dos Akuntsu, também em Rondônia, cuja história e foto você vê na edição de agosto da revista Trip. “Julaparé ajudou muito no meu trabalho de registro da língua. Mas ele não gostava muito de conversar com a outra falante Umutina, ficava triste, lembrava do passado de seu povo”, conta a profa. Stella Telles, da UFPE, que estudou a fundo o caso de Julaparé. Nesse vídeo você pode ver Julaparé falando por alguns segundos. Ele responde, em português monossilábico e muito sem jeito, o que lembra de Marechal Rondon, militar e sertanista brasileiro, que passou pela sua tribo na década de 50. Infelizmente, não fala nenhuma palavra em Umutina (mas nós te ensinamos uma: Barukolô, que significa “estrela”). A pronúncia exata, contudo, nunca mais. |
| |
|
|
|
|