Poucos cineastas conseguiram imprimir marcas tão peculiares, originais e imediatamente identificáveis em seus filmes a ponto de virar adjetivo. No passado, Federico Fellini e Alfred Hitchcock. No presente, Pedro Almodóvar, David Lynch, entre poucos outros.
No caso de Lynch, ocorre um paradoxo interessante: a atual persona pública do artista, a de porta-voz da meditação e arauto da paz, é radicalmente oposta ao que se reconhece como “o universo lynchiano”, povoado por imagens mórbidas, seres atormentados, atmosfera de pesadelo e embaralhamento entre imaginação e realidade. No livro Em águas profundas – criatividade e meditação, em meio a frases quase ingênuas sobre a importância de “mergulhar em si mesmo”, o cineasta é capaz de soltar a seguinte pérola: “Existe uma textura extraordinária em um corpo decomposto. Você já viu algum animalzinho decomposto? Eu me deleito em reparar nessas coisas”.
O cinema de Lynch está recheado de pequenas bizarrices como essa. E não se trata, como é muito comum hoje, de maneirismo adquirido. Boa parte dessas marcas já estava presente em seu longa de estréia, Eraserhead (1977), história de um homem atormentado pelos ataques de raiva da namorada e pelos gritos do filho recém-nascido, uma figura que ora lembra uma galinha depenada, ora um alienígena moribundo. Desde então, Lynch só deu mais voltas em sua espiral de estranheza. Houve a orelha decepada que inicia a trama de Veludo azul (1986), o anão dançarino no quarto vermelho da série Twin Peaks (até hoje marco de ousadia na TV mundial), a caixa que serve como portal para outra realidade em Cidade dos sonhos (2001), os homens-coelho que intercalam a história de Império dos sonhos (2006).
Mesmo em seus filmes de encomenda, como O homem elefante (1980) e História real (1999), Lynch consegue contrabandear elementos de seu universo. A grande exceção é Duna (1984), ficção científica caríssima que foi um enorme fracasso; sem direito ao corte final, Lynch nem mesmo inclui esse trabalho na filmografia de seu livro.
Mais do que o fato de ter mantido a independência depois de 30 anos vivendo em Hollywood, de continuar fazendo filmes não lineares em uma cinematografia com narrativas cada vez mais caretas, a grande marca do cinema de Lynch é sua aura de mistério, sua recusa em explicar elementos supostamente surreais, sua generosidade de deixar o espectador livre para lhes dar um significado.
Claro, essas escolhas impedem que Lynch alcance um público maior, mas garantem um séquito de seguidores fiéis, que podem discutir horas a fio as dúvidas sobre seus filmes e conhecem de cor todos os seus personagens e cenários. Como a atriz Raquel Marinho, que colocou a Oração a David Lynch em sua página no Orkut, para celebrar a visita ao Brasil de seu messias: “Ó David Lynch de Eraserhead!/ Santificados sejam vossos sonhos./ Venham a nós os vossos filmes./ Seja perdida a vossa estrada/ Em Twin Peaks ou LA./ O anão vosso de cada dia/ Nos dai hoje/ Perdoai-nos por ir ao Jack Caolho/ Assim como nós perdoamos/ Aqueles que vão ao Clube Silêncio/ E não nos deixai ficar sem cowboys/ E livrai a Laura do Bob/ Amém!”.
 
1. Laura Dern, atriz-fetiche de Lynch, à frente do coro de garotas de Império dos sonhos 2. A família de coelhos de seu último filme, elemento inexplicável que desconcerta os espectadores 3. Laura Harring e Justin Theroux em uma das encruzilhadas de imaginação e realidade de Cidade dos sonhos 4. Lynch dirige Harring no mesmo filme 5. Kyle MacLachlan como o detetive da série Twin Peaks, marco de ousadia na TV 6. Jack Nance interpreta o atormentado protagonista de Eraserhead, longa de estréia do cineasta
Logo depois da escola de arte, você começou a filmar Eraserhead e a praticar meditação transcendental. No livro, você conta que foi uma época turbulenta em sua vida pessoal, e o filme reflete o conflito do protagonista com a idéia de casamento e da paternidade. A meditação também ajudou nessas questões íntimas?
Eu me casei e me separei três vezes. Então você pode dizer que tenho problemas no departamento matrimonial. Mas, na minha cabeça, as coisas mudaram. Os eventos na sua vida podem permanecer basicamente os mesmos quando você começa a meditar, mas a maneira como você os enfrenta certamente melhora com o tempo. As relações melhoram. Mesmo as relações estremecidas. Os problemas continuam lá, mas há uma gentileza e uma compreensão maiores pela outra pessoa. Tudo pode estar desmoronando, mas isso não vai mais matar as duas pessoas.

É verdade a história de que, ao ser apresentado à atriz Isabella Rossellini (que depois se tornaria sua namorada por quatro anos), você teria comentado: “Você poderia ser a filha de Ingrid Bergman!” (sem saber que, na verdade, Isabella é realmente filha de Ingrid com o cineasta Roberto Rossellini)?
História verdadeira. Eu estava com outras três pessoas. A gente foi apresentado em um restaurante de Nova York. Eu estou lá sentado e olhando para Isabella. Daí fiz aquele comentário. A outra garota na mesa me olhou como se eu fosse um idiota. Mas a Isabella levou na boa.

E quanto à história de que você teria sido convidado por George Lucas para dirigir O retorno do Jedi (1983), depois que ele viu seu trabalho em O homem elefante?
Sim, é verdade. Mas era uma história do George. Eu apenas respondi que ele mesmo deveria dirigir.

Depois do fracasso de Duna, você se consagrou com Veludo azul, que tem muito das marcas do seu cinema posterior. Eu gostaria de saber como nasce a idéia de um filme tão peculiar como esse,de entender um pouco seu processo de criação.
Quando Bobby Vinton gravou a música “Blue Velvet”, eu não gostei muito. Não era rock’n’roll. Mas, quando a ouvi de novo anos depois, ela despertou algo em mim. Ela tinha o clima do que o filme se tornaria. Eu escutei a música e pensei em gramados verdes de noite, lábios vermelhos e um carro. Isso foi o começo. O filme nunca aparece para mim de uma só vez, ele vem em fragmentos. Esses foram os primeiros.
 
 
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