ZÉ MIÚDO, REI DO SUPINO
De volta ao tour pelas ruas de Itabaianinha, Toinho parou no bar Fla Lanche e chamou José Heraldo, mais conhecido como Zé Miúdo. Com um bigodinho mexicano e a camisa do Flamengo, Zé Miúdo contou vários causos que rolam no seu boteco. “Tenho 40 kg e
1,30 m, mas todo mundo me respeita. Ninguém perde a linha, o meu bar é o último a fechar na cidade. Outro dia um sujeito passou do limite. Peguei meu trabuco e fiz ele ficar calminho.” Zé Miúdo é vaidoso pra dedéu. Vive na academia e transformou-se no rei do supino. Puxa ferro diariamente e joga futebol com os gigantes. É casado com uma moça altinha e garante que continua cobiçado por muitas raparigas.
O bombado Zé Miúdo é exceção entre os anões de Itabaianinha. O baixo índice de massa muscular da maioria deles faz com que tarefas aparentemente suaves constituam esforços titânicos. Como uma das funções do hormônio de crescimento é queimar gorduras, sua ausência provoca aumento na taxa do colesterol no sangue, fator de risco para arteriosclerose e os males cardíacos. O dado positivo é a longevidade do grupo. Segundo as tabelas dos especialistas, a maioria tende a ultrapassar a barreira dos 90 anos.

OS ANÕES DO ARROCHA
Na roça perto da cidade, fomos visitar a casa e a olaria dos irmãos Clécio e Cleidivan Tibúrcio de Jesus. O local que habitam é um oásis de tranqüilidade. Trabalham diariamente criando moringas, vasos e pratos de argila. A surpresa foi quando Cleidivan nos convidou para ir ao seu quarto. Com um olhar sorrateiro, sussurrou: “Agora você vai conhecer Os Anões do Arrocha”. Um enorme teclado dominava todo o espaço. Chamou o irmão e começaram a tocar, cantar e dançar alguns megahits das paradas nordestinas. Só faltou Mutantes no repertório. O maestro Caçulinha incorporava no pequeno Cleidivan em plena zona da mata. Ao final, apareceu sua namorada, Luziana, uma dengosa nativa de 1,60 m. Toinho interrompeu a cantoria para dizer que ainda faltava conhecer dona Pureza.
A casa de Josefa da Fonseca Dantas, a dona Pureza, é a mais linda de todos os pequeninos. O sofá, a cama, os quadros, todos os objetos encontram-se muito bem organizados. Ela está com 71 anos e tem um casal de filhos. Com sua voz fininha, ela foi contando alguns fragmentos de sua vida. “Conheci meu marido com 17 anos e fomos casados por 50 anos. Eu tinha 1,15 m, ele 1,60 m. Fui a primeira anãzinha a casar com gente grande. As pequeninas morriam de medo do risco do aborto ou de morrer no parto. Quebrei esse tabu. Era birutinha da silva. Resolvi não casar com outro anão para não espalhar mais reduzidos. Quando casei, foi um rebuliço. Todos os anões começaram a se casar. Na minha infância e adolescência tinha muita tristeza por não crescer. Chorava muito vendo os outros aumentando de tamanho, e eu ali do mesmo jeito. O meu alívio era ver outros miudinhos andando pelas ruas”, conta.
Segunda dona Pureza, a visão da sociedade sobre os anões de Itabaianinha é marcada por uma confusão. “A maioria acredita que somos iguais aos anões de circo, que são vítimas de problemas glandulares. Mas os anões de Itabaianinha são humanos reduzidos. Nossos membros e órgãos são proporcionais ao corpo.”

comente