Pai que põe comida na mesa enche a boca do filho Ian, na época com 2 anos; ao lado, com a família na London Eye, quando moravam em Londres
 


E você pratica esporte? Tô na esperança de o Dunga reconhecer meu talento... jogo futebol sempre. Umas duas vezes por semana eu tento. Tenho uma agenda de peladas em São Paulo e no Rio. Então quando me sobra um tempo eu sei onde tem um jogo rolando.

Você é cuidadoso com sua alimentação? Minha família brinca comigo dizendo que cozinho pra hospital. Macrobiótico, sem sal [risos]. E eu cheguei a ficar acho que quatro ou cinco anos, no mínimo, à base de arroz integral, frango, cenoura. Uma canja de galinha, levinha. Eu adoro arroz integral, sou dependente mesmo.

Acha que esse é o seu legado hippie, a alimentação? Sem dúvida. E eu gosto da idéia coletiva também, não sou chegado nas coisas privadas. Acho tão engraçada essa vida em cortiços, cozinha em comum. Alguns trabalhos, também, como os Médicos sem fronteira. Tem um pouco a ver com essa filosofia de o mundo não ter fronteira. Eu tenho um sonho, e acho que você vai me achar um pouco ingênuo, de que eu estou com um carro aqui, mas deixei a chave na ignição, alguém pega e vai. E tudo bem, quando eu sair haverá outro carro com a chave ali perto.

Você é vaidoso? Sou. Por gostar de manter a saúde e porque eu me esforço em ser agradável pros outros. Talvez por herança mesmo. De a minha família ser extremamente cuidadosa com a aparência. Eu tinha sempre umas roupas muitos limpinhas, passadas. Poucas, mas hiperbem cuidadas. O sapato sempre engraxado. Eu desenhava camisas iguais às dos Beatles, dos Rolling Stones, copiando das revistas. Depois levava pra costureira do bairro fazer para mim. E isso me influenciou, também, a achar que a aparência fala um pouco de você.

Falando nisso, você é muito paquerado? Porque na Tpm você faz sucesso... O pessoal brinca [risos]. Eu acho que tem uma mistura ali, vou parecer bobo demais, de uma certa admiração pelo trabalho. Eu acho que sou uma pessoa legal... pra deixar de ser modesto. E aí pode parecer assédio. Efetivamente é raro. Acho que as mulheres gostam de mim, mas não por esse lado. Até porque não sou galã, né? Galã tem outro perfil.

Com 58 anos, você sente ter a idade que tem? Quando estou bem, sem pensar na morte, eu não sinto cansaço. Às vezes aparecem dores musculares, mas é descuido, quando não faço alongamentos. No futebol dá para sentir a diferença. Antes corria harmonicamente, hoje trepida, umas pisadas que machucam o gramado.

E você está com algum livro novo no horizonte? Estou. Não é tão denunciatório, mas uma encrenca que vai incomodar muita gente. Eu não gosto de falar, mas, pra não deixar de te responder, diria que é sobre a cultura da violência. Mas está muito no início a apuração, e eu não sei o que vai dar.

E você não pensa em escrever ficção? Eu escrevi uma peça não tem muito tempo. Chama Osama, o homem-bomba do Rio [risos]. Eu fui convidado para escrever. É um projeto do National Theater de Londres chamado Conexões. Envolve 12 países. E esse projeto está chegando ao Brasil agora. É um banco de peças que vão sendo montadas pelo mundo com países como Paquistão na lista. Imagina, minha peça encenada no Paquistão.

E como é a peça? É a história de um carioca e de um paulistano de classes diferentes. O carioca é um traficante aposentado aos 20 anos, chamado Osama, que resolve montar uma quadrilha pra salvar as mães dos traficantes, que estão sempre fora do morro, trabalhando como domésticas. Só que a arma do Osama é a bomba amarrada ao corpo. Porque ninguém se mete se você oferece a própria vida. Mas quando o pessoal descobre que era oferecer a vida pela mãe... Eles não concordam: “Matar eu até topo, é com a gente, mas morrer, nem pela mãe” [risos]. Mas isso é o começo...

Você se sente ameaçado por ter dinheiro, por ser uma pessoa rica? Não. E também não está no meu horizonte ficar rico. Acho importante ganhar grana, ter conforto, viajar pra onde eu quero. Mas isso não pode me deixar com medo de ser roubado toda hora, não confiar em ninguém ou de ir pra um trabalho que não me deixa feliz só porque representa mais grana. Eu não tenho o menor cuidado, paranóia. E sempre tive uma coisa muito forte na cabeça: fui muito feliz quando era pobre. Então não tenho medo de perder, sabe?

E sua família tinha pouca grana mesmo? Meu pai tinha que trabalhar em dois ou três empregos. A minha mãe garantia alimentação de alta qualidade, mas plantando no quintal. Tínhamos uma vida social intensa, nossas casas eram extensões da rua. E eu botei na minha cabeça que não podia ficar infeliz à medida que ia mudando de classe social. Até porque nunca pensei em ganhar tanto como repórter. Quando eu comecei na reportagem era o primeiro degrau da ascensão possível profissional.

E você, como repórter, mudou muito? Não. Acho que estou exatamente como era no primeiro dia. De achar que não vou conseguir fazer, de que não sou capaz, de sentir um desafio muito difícil. Aí começa a trabalhar, a apurar, ler, ir para a rua, o processo todo de novo. Basicamente é a mesma coisa. Eu sempre me surpreendo.

E por que você não se interessa tanto por contar histórias de gente rica? Vou copiar o Walter Sales. “Por que esse cara rico só faz filme de pobre? Porque rico não dá filme” [risos]. Porque é um país em que a maioria é pobre e você tem que ter isso na cabeça. Se eu morasse na Suíça seria obrigado a escrever sobre os ricos.

Você é religioso de alguma forma? De alguma forma sim... [risos] bem de alguma forma. Só fui praticante quando era coroinha da Igreja Católica. Isso lá no Rio Grande do Sul quando era criança. Mas nunca me convenceu. Sobretudo quando tive consciência do que era a Igreja dos poderosos... Não me fascina, nem me convence.

Mas você sente uma dimensão espiritual? Sim, respeito os mistérios. Penso bastante e sinto que tem forças difíceis de ex– plicar. E na minha época de hippie, isso também era algo sobre que gente pensava e desejava. Desapego das coisas materiais. Ter muitas coisas não faz sentido. Eu lembro que a gente se vestia bem trocando roupa, comia muito bem sem gastar dinheiro, pensando na vida de um olhar mais amplo.

Há quem diga que o desejo de acúmulo é o sintoma número um do medo. Essência do capitalismo. Se desprender do medo de empobrecer é um grande avanço. Não tenho medo de perder. O que não dá é para ter um casamento infeliz, viver uma vida desagradável. Não pode ser o foco da sua vida. Se você está sendo um pouquinho infeliz pra ter alguma coisa, abre mão!

E qual um bom foco para a vida, então? Tentar ter uma história bonita para ser lembrada pelos outros e você continuar de uma certa forma vivo. Transformar sua vida em uma boa história, digna. É uma perda de tempo ser infeliz, se a gente pensar que cada segundo não se repete. Eu penso muito nisso. Porque medo mesmo eu tenho é de morrer.

Bom, disso não dá para escapar. Não mesmo, seja bonzinho ou mauzinho. Mas é fogo... eu não queria morrer assim, tão rápido.

 
 
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