Você já teve alguma experiência com drogas? Não. Eu lembro que meu pai fumava muito cigarro. Quando fiz 18 anos, ele falou: “Bom, chegou a hora de você fumar um cigarro”. Foi uma decepção quando eu disse não. Os meus amigos também: “Você não bebe, você não fuma... você é veado?” [risos].

Mas nem quando você era hippie? Imagino que naquela época fazia parte do pacote. E olha que eu morei em comunidade hippie... macrobiótico desde 1971. Bom, aí havia umas coisas que diziam que eram lisérgicas na comida... uns cogumelos... Mas eu nunca senti nada. Nem maconha ou cocaína. E meus amigos provocando... “Você não sabe o que está perdendo.”

Era falta de curiosidade ou medo? Medo e uma relação de causa e efeito. Eu estava lendo muito Nietzsche nessa época hippie. Que falava da importância do jejum pra mudar seu estágio de humor. Eu fiz experiências assim, ficar sem comer várias horas seguidas e descobrir o efeito de cada alimento. Eu já me achava um pouco maluco sem precisar de nada. Isso pode parecer até mentira, mas só tomei um porre na vida toda. Isso é grave, né? Vinho eu estou tentando, porque dizem que é preventivo pra câncer de próstata.

Você seria um bom policial? [Risos] Pelo lado da descoberta, sim. Mas, como isso leva a punição, eu não gostaria. Eu ficava mal ao constatar que as matérias levavam à punição de soldados. Acho que esse foi um dos motivos de eu ter feito o Rota. Quem deu a ordem, quem criou o esquadrão da morte, eu não vou tocar neles?

Que tipo de punição seria a ideal para os criminosos no Brasil? Infelizmente nossa cadeia não é boa idéia, porque elas são medievais. Se aplicassem a lei corretamente, sem preconceito de classe [risos], eu acho que já mudaria bem. Mas as cadeias estão lotadas de pessoas que roubaram, e não que mataram. Claro que não pode roubar, mas matar é muito mais grave. Eu vi uma pesquisa feita por uma agência de propaganda: 49% dos ricos entrevistados disseram que, se fossem policias, usariam a tortura, 19% dos pobres responderam da mesma forma. É uma sociedade dividida, que aprova tortura para um crime de furto, algo menos grave que tortura. Então a sociedade dita organizada tem a violência na base.

Mas não é exclusividade nossa. O patrimônio é mais protegido do que a vida no mundo todo. Tem razão. É um mundo movido assim. Mas aqui é mais, porque nunca uma bandeira dos direitos humanos virou política pública. Aqui é só a bandeira dos coronéis, de castigar quem agride patrimônio. Somando as nações que têm pena de morte no mundo todo, elas executaram 1.130 pessoas no ano. Só a PM do Brasil matou mais: 1.400 pessoas!

E como você vê o fenômeno social do Tropa de elite, logo você que se dedica tanto a conter a brutalidade policial? É triste a interpretação que fizeram do filme, porque é uma obra de arte.

Mas reduzir aquele filme a obra de arte é como chamar seus livros de romances. Bom... é verdade. Eu me preocupo, realmente, é com a interpretação das pessoas. Transformar um assassino em herói é triste.

A longo prazo você é otimista com essa sociedade? Eu sou! Quando vejo minha filha de 9 anos me dando a maior bronca porque eu uso a água quente pra me barbear e esqueço de desligar. E não é um exemplo isolado. E a informação é aliada das coisas positivas. Acho que a sociedade está cada vez mais bem informada. Eu acho que isso vai formar uma sociedade mais sábia.

Mas você disse, também, que a informação é formadora de paranóia, o que torna a sociedade menos sábia e mais arisca. É... mas acho que é uma minoria que pode ficar doente com o excesso de informação. Tem-se que superar a força dos músculos, usar o saber para contrapor a violência. Essa é minha vontade, não é uma análise bem fundamentada. Porque ainda vejo imbecilidades acontecendo nessa área de violência. O Bope reproduzindo o que a Rota fez. As mesmas técnicas que os EUA ensinaram aos coronéis aqui durante a ditadura.

Você acha que a gente vive em uma sociedade violenta na essência? Acho. A violência está em toda a sociedade e não é só no ato de dar uma porrada. A exploração no mercado de trabalho é uma violência. As palavras, humilhação. E a intolerância principalmente, há religiões por aí que praticam a intolerância.

Como você caiu na TV? Eu era freelancer e adorava correr atrás de histórias. Eu vendia história pronta, com fotografia e tudo. Um editor do Jornal da tarde, que gostava do meu trabalho, foi contratado pela Globo e me convidou. Eu recusei, achava um veículo oficialista. Aí, de tanto rodar, acabei morando em Nova York, e lá me apaixonei por televisão. Percebi que é possível fazer uns trabalhos maravilhosos na TV. Liguei pra ele e perguntei se o convite ainda estava de pé. Fiz os testes e depois de um ano, quando surgiu uma vaga, eu entrei.

A Rede Globo é uma empresa conservadora? Eu acho que é aberta. Se você analisar um telejornal é uma coisa, mas um conjunto é outra. Pô, tem coisas ali criativas pra caramba, minisséries, programas de humor. Tem programas que eu acho que são inovadores. Se a Globo fosse conservadora, não abriria espaços para projetos como o Profissão repórter.

Mas a Globo não é muito contestadora, no sentido de se contrapor ao conservadorismo, de bater mesmo de frente. Você nunca vê a Globo indignada, estilo Boris Casoy. Pois é, mas por outro lado tem comentaristas que fazem isso, não é? Arnaldo Jabor, por exemplo. É que o âncora é mais voltado pra leitura de notícias. E eu acho que uma empresa assim tem que falar com muita gente, então a imagem tem que ser uma que todo mundo entenda.

Você não está cansado de trabalhar tanto? É incrível, eu trabalho muito mesmo. Já foi pior. Eu jurei pra mim mesmo que não faria um outro livro como fiz o Rota 66 e o Abusado. Na décima quarta hora de trabalho. O Abusado devia se chamar “Cansado” [risos]. Eu abusei de mim mesmo. Eu escrevia um capítulo e reescrevia duas ou três vezes, porque tinha escrito com sono demais. Mas eu gosto, acho que por isso não canso. E tenho um projeto sério pro futuro: morrer trabalhando. Se conseguir ir trabalhando até o fim, que maravilhoso para a saúde.

E a sua família não se queixa, não? Minha mulher trabalha muito também. Ela é estilista de alta-costura, aquela coisa detalhada e meticulosa. E a gente se acerta muito por esse lado. Tentamos, claro, ficar uns dias juntos, com os filhos.

Mas você sente algum tipo de culpa por não ver tanto seus filhos? Tive muita culpa ao longo da vida. Cheguei a fazer análise, e o analista me ajudou dizendo que o importante quando se está junto é que a relação seja intensa, e que o seu filho saiba exatamente o que você faz e que a sua distância não significa que estejam desligados. E minha mulher e eu fizemos um projeto já contando com essa minha vida.

 
 
 
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