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Você já se sentiu cooptado por algum veículo, antes de ter a independência que você tem hoje, de precisar reportar o que o editor pensava, e não o que você apurou? Eu tive sorte de sempre ter escolhido a reportagem de mais fôlego. E estrategicamente sempre sugeri muitas pautas. As que não estão de acordo com a linha editorial da revista, basta eliminar, vou correr atrás das outras. Porque a gente não tem liberdade. Tem, se possível, independência.
Então, você não se sente uma pessoa livre? Claro que não. Ninguém é livre. O fundamental, com toda sinceridade, é que não me envergonho de nada que fiz até hoje. Podem me culpar de tudo, assumo totalmente. É um conforto. Talvez desejasse fazer muitas outras coisas, mas aí precisa um dia eu ter meu veículo. Mas não tenho essa pretensão. Eu adoro trabalhar na televisão. Contar histórias pra muita gente. Acho que sou um privilegiado mesmo.
Você se considera um cara de esquerda? Se é que esse termo faz sentido hoje em dia... Talvez faça, mas eu nunca fui vinculado a nada. Nunca tive partido, ONG... não precisa. Talvez pela maneira de eu ver o mundo, sim, sou de esquerda.
Você tem medo durante suas investigações, medo de tomar um tiro? Esse medo não, porque eu acho que isso não vai acontecer comigo, embora eu saiba que possa ocorrer. Claro que na guerrilha de repente pode sair um tiroteio... aí acabou. Mas, quando você vai pra lá, esse componente está presente. Então tento ao máximo não correr risco. Não vou atrás de risco, vou atrás de uma história. Até porque se eu correr riscos demais não vou contar a história depois.
Escrever livros entregando matadores da Rota, expondo o Comando Vermelho, não é uma das coisas mais prudentes pra fazer da vida. Pois é, mas por outro lado eu pensava assim: “Eu não sou mais aquele moleque que eu era do Partenon, lá em Porto Alegre, que corria da polícia porque fazia parte do cotidiano de um menino pobre”. Eu era repórter de uma emissora reconhecida, um cidadão que não é perseguido.
Então agora eu entendi a sua fixação com a polícia, você fugia deles quando era moleque... Pode ser. É que pobre em princípio é suspeito. Se houve um roubo no bairro nobre, ninguém vai achar que é um morador dali. Tá vindo do bairro pobre, e os ricos estão exigindo de volta o que foi roubado. É assim que começa a perseguição nas comunidades pobres. Quem estiver na rua é suspeito. É como age a Rota, como sempre agiram as polícias. Hoje eu penso assim: “Não tenho perfil de um cara para ser perseguido por eles, então eu não vou ser perseguido, mesmo fazendo um livro”. Achava que era um risco calculado.
Mas e o risco de ser caçado depois da matéria? Você já denunciou gente muito perigosa. Por isso eu respeito muito. Se o cara é um agressor, você precisa ter muito mais respeito. Para esse cara ficar convencido de que eu não tenho nada, pessoalmente, contra ele, que estou em uma missão pública. Eu falei com 500 pessoas antes que falaram mal dele. Não sou eu que estou falando... “Mas eu estou aqui pra tentar dizer que essas 500 pessoas estão erradas, que não vou precisar te ferrar.” Agora, se os 500 estão certos... “Meu caro, me desculpe, é minha função.” Os bandidos entendem isso. Acho que, assim como a violência gera a violência, o respeito gera o respeito. O entendimento gera o entendimento.
Mas isso não é garantia. Você acha que nunca passou perto da morte, de ter sido jurado por gente que você denunciou? No caso do Rota 66, houve muitos boatos de que queriam me pegar. Mas eu acho que eles leram o livro e desistiram. É a minha esperança. Que perceberam que eu não tinha nada contra ninguém. Era um pedido, implorando: “Parem de matar, isso não resolve nada”.
E qual a saída para parar essa matança? Aí não é apontar só a polícia. Acho que envolve a sociedade toda. Polícia é ponta, última instância. Precisamos de respeito recíproco. Eu acho um absurdo não existir nenhum prédio da Justiça nas comunidades pobres. Eu acho sempre bom que os poderosos possam estar perto dos problemas nacionais. Ministérios públicos, imprensa, polícia. Senão o povo fica refém só de traficante, máfia, jogo do bicho.
Há alguns anos, na Tpm, você disse que não acreditava que o Abusado tenha sido responsável pela morte do Marcinho VP. Hoje você vê da mesma forma? Sim. Nada como o tempo... Mortes aconteceram depois, mas nunca se sabe por que mataram. Nem descobriram quem matou. Claro que fiquei chateado ao saber da morte. Depois entendi melhor o que estava acontecendo com o Comando Vermelho. Os matadores ganharam força nas organizações criminosas. E estão ganhando força em vários segmentos sociais.
Como assim? Cansei de entrar em cadeias, e antes os matadores viravam picadinho. Eram indesejados na cadeia. Precisavam ficar isolados. E foram ganhando força, tomando conta de tudo. As cadeias são dominadas por eles, quase todas as polícias têm pelo menos uma unidade de elite cheia de matadores. O Comando Vermelho, no passado, jamais mataria um parceiro. Hoje é freqüente, e com tortura, com os métodos da polícia. Estão cada vez mais próximos os métodos dos dois. Isso mudou, e só estudando pra saber quando se deu essa guinada.
Você acha que esse livro seria possível de ser feito hoje, depois dessa mudança? Talvez não... porque o Juliano [codinome do Marcinho VP] era um mamão com açúcar. Embora também matasse, mas não nesse nível que está hoje. E o homicídio se tornou uma solução simples, porque a nossa Justiça pune muito pouco o crime contra a vida.
Então, é um crime seguro de cometer, não é? Mais seguro do que assaltar. O risco de ser preso em um assalto é muito maior. Em um crime de morte a chance de ser punido é de 2%, 3%.
Qual sua opinião sobre a legislação atual sobre drogas? Não tenho opinião formada, mas eu defendo firmemente o debate sério, público e conseqüente. Que busque soluções e que seja bem realista. Por exemplo, não adianta debater, no momento, a cocaína. Que envolve relações bilaterais, outros países. Se você legalizar a cocaína, como é que fica pra comprar? No tráfico internacional? A legalização implica a produção, e aí a gente não tem matéria-prima... Mas a maconha, por exemplo, eu sou favorável à discussão. Se legalizada, a gente transforma o traficante em comerciante. Sugiro que tudo fique dentro da lei, assim como vender cachaça é legal e causa um dano pra saúde. Eu detesto cachaça, acho que é a droga que mais faz mal no Brasil. Mas não deve ser proibida senão vai ter um traficante vendendo cachaça e de pior qualidade.
O “debate sério” que você sugere é uma coisa que todo mundo fala. Mas o que é exatamente isso, na prática? Acho que um fórum que iria em busca de solução. E passa por uma votação nacional: vamos proibir ou não?
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