Caco solto no mundo, sempre atrás de encrenca: à esq., na ofensiva israelense no campo de Jenin, em 2002; à dir.,em Quito, na guerra civil da Angola, em 2000
 

Mas mesmo no caso Isabella? A gente precisa realmente saber em que cadeira sentou o escrivão do caso? O caso da Isabella tem esse componente da cultura da violência. Eu acho que a polícia nos ensinou a pensar, o que é um grande erro, que, quem morre, morre porque deve. Coisa da cultura do esquadrão da morte, “estava no lugar errado na hora errada”. E, no caso dessa criança, Isabella, você não podia culpar a vítima. É uma inocente de 5 anos. A segunda coisa: família de classe média, com o pé no direito. Então a polícia não podia usar os métodos que usam contra os pobres, que não é de investigação e sim de tortura.

Você acha que a gente vive em um país que tem mais medo hoje do que quando você começou a ir pra rua? Sem dúvida. Na minha geração tinha aquele medo próprio da ditadura, mas em um segmento específico da sociedade. Hoje é muito mais intenso esse medo, mas não só pela violência, mas também pelo medo de acidentes, de tragédias. Acho que talvez a gente tenha causado esse mal. Uma mídia mais avançada, veículos dinâmicos... Hoje a CNN instantaneamente está com a câmera aberta antes de a bomba cair, gráficos e dados sobre todo tipo de doença, acidentes, tragédias. Isso aumenta a tensão em todo mundo.

Informação aumenta nosso medo? Quando as pessoas estão mais bem informadas sabem o risco que elas estão correndo. Antigamente você ouvia dizer que morreram 20 mil, e era um número. Agora você tem a imagem. E ao vivo... Cai um avião e quantos celulares registram a queda? Eu nunca tinha visto isso até 2006, quando caiu o avião da Gol. Hoje os computadores, aqueles programas, reproduzem os instantes finais. E põem o conteúdo sonoro da caixa preta, o cara gritando... você se imagina dentro.

Você se sente nessa paranóia ou fora dela, por ser da mídia? Me sinto inferiorizado mesmo [risos]. Se antes eu me achava perto do nada, agora estou quase no nada absoluto [risos]. Acho que dá uma sensação da consciência da nossa falta de importância.

Mesmo sendo visto por milhões de pessoas? Sim. E é fascinante fazer isso, eu adoro. Mas faz bem ter essa consciência, assim a gente interfere menos nas coisas que cobre.

Então, fora criar mais medo... O que seu trabalho acrescenta para o mundo? Eu tento não causar histeria, tento hierarquizar, separar uma coisa da outra. É quase dizer assim: “Você está assustado, mas cuidado. Tem um serial killer solto por aí, mas o risco de você morrer é muito maior se você brigar com o vizinho...” [risos].

Então é criar uma paranóia informada, a paranóia certa... [Risos] É, sinta medo, mas com coisa certa [risos]... não perca tempo com medos indevidos.

Você se preocupa muito com sua audiência, com a opinião do espectador? Audiência sim... quando você escreve para uma revista, quer que a revista venda, quer que tenha gente lendo, né? Mas quanto à opinião das pessoas mesmo... A gente tem a crítica nossa ali dentro, que já é bem dura. Da nossa equipe em primeiro lugar. Depois as opiniões internas são importantes, porque são pessoas que fazem televisão. Mas na rua... na rua é legal. Essa é uma avaliação de que eu gosto, até porque na rua o leque é bem amplo. Você não imagina o que pode ser do interesse de uma criança ou de uma senhora bem idosa...

Profissão repórter é um projeto seu? A idéia de fazer é. Agora, quando você coloca sobre a mesa, aí é tudo coletivo. E veio de uma necessidade. Eu estava sempre envolvido com outras histórias e sempre preocupado em ouvir todos os lados, fazer algo equilibrado. Aí eu pensei... “Pô, se fizermos reportagens em grupos, sobre o mesmo tema, com ângulos diferentes, de forma simultânea, fica mais completo e permite uma narrativa mais rápida.” E eu sempre fui bastante encantado por trabalhar com jovens, por perceber o quanto hoje eles são mais bem preparados.

Mas muito jornalista de outras gerações critica a molecada de hoje, que não sabe mais apurar, não suja mais o sapato. Eu discordo. O acesso à informação foi democratizado. Eu mesmo, quando tinha meus 20 anos, para me informar bem tinha que ir a uma biblioteca, enfrentar um burocrata chato. Hoje você faz isso em segundos. O cara com o sapato limpo está inquieto, procurando em todas as bibliotecas do mundo e não naquela em que eu ia a pé. E o pessoal adora ir pra rua. As coisas se complementam, não precisa escolher uma e abrir mão da outra.

Você se considera o melhor repórter da televisão? Sem falsa modéstia? Eu estou entre os melhores. No mínimo eu mereço estar entre eles. Tenho consciência de como as pessoas me vêem na rua. O melhor do trabalho é isso de carinho e de atenção. Adoro quando alguém lembra de coisas que eu fiz em 1989.

E você se preocupa de isso mexer muito com seu ego? Acho que sim. Às vezes eu me preocupo e tal, porque eu tenho consciência de que não sou nada, mas tem gente que acha que eu sou, né? E é melhor que achem que eu seja, porque senão eu não teria emprego, né? [Risos.]

Mas você acha que tem o ego grande? Acho que escondo bem [risos]. Eu às vezes me acho egocentrado, mas me policio. E a base do meu trabalho é ouvir, ser atento aos outros. Mesmo nas reuniões em grupo, eu sou bastante ouvinte. Mas nisso com certeza tem um componente de vaidade, mas acho que é voltado para o trabalho. Fico mal quando alguém fala que está uma merda, que eu errei a mão. Quando elogiam, acho normal, eu já esperava.

É uma expectativa de excelência, não? Quando você começa a fazer um trabalho bom você fica refém dele... Fica totalmente. Você quer que o trabalho seguinte seja sempre melhor. Mas acho bom, fundamental que não se perca isso. E também, às vezes, a gente tem que ter a coragem de ir contra a maioria. Eu já tive barras difíceis que enfrentei, mas fiz o meu papel.

Exemplo? Fiz uma matéria sobre a Escuderia LeCoq, do crime organizado do Espírito Santo. Era a Polícia Federal investigando a Polícia Civil, o Judiciário, PM... E eu também, fazendo as minhas por fora. Tinha um padre que havia sofrido vários atentados. E a gente contou a história dele. Dez dias depois mataram o padre. E eu fui pra lá e fiz a matéria. Cara, me vi diante de um malaco, chorando copiosamente, a mulher grávida ao lado... “Eu matei o único padre que cuidava da nossa favela...” Era um tiroteio com um grupo rival, o padre entrou com o Fusquinha dele, não deu sinal de luz e meteram bala no padre por engano. Aí foi matéria pro Jornal nacional, dizendo que o padre sofria diversas ameaças, mas quem matou foi esse cara arrependido. Aí a Igreja criticou: “Foi a Rede Globo que fez você falar isso...”. Aí eu falei: “Não culpem a ninguém, culpem a mim”. Eu apurei. E me frustrei pra caramba. Queria ter denunciado o crime organizado. Mas não vou para a rua buscar coisas de que já tenho certeza.

E as grandes publicações? Você lê a Veja, por exemplo? Agora eu não leio mais... Me atacaram muito nos blogs deles, ameaçando de morte. Acho que eles estavam com saudades dos torturadores e dos assassinos. Pensei em processar, mas fiquei na minha. Eu fico triste porque foi uma revista onde eu trabalhei, de que eu gostava tanto. Uma pena. Mas eu acho que isso se recicla, muda.

 
   
 
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