
Por conta do jornalismo investigativo, de descobrir o que os outros querem esconder, você tem muitos inimigos? Eu não sei. Imagino que tenha, considerando o veículo em que eu trabalho, que atinge sempre muita gente. Deve ter muitas pessoas irritadas. Mas, se você estiver um pouquinho mais atento, vai perceber que, de cada dez matérias, talvez oito sejam o olhar da vítima, de quem sofre, mais do que apontar o dedo para quem cometeu aquele dano. Tem colegas que fazem o oposto, não é?
E por que você não se interessa tanto por ir atrás do algoz? Não acha que isso seria mais útil? Primeiro eu tenho um problema com juízo de valores. Eu já acho que o cara que é um bruto é uma vítima também de alguma coisa. É tão estúpido que ele sofre também. Procuro buscar mais o contexto, as nuances. Tudo sempre é muito complexo quando envolve gente. O pai alcoólatra geralmente é um cara generoso. Bebe e perde o equilíbrio.
Mas eu estava falando mais em termos gerais, econômicos talvez. As pessoas e os mecanismos que são os grandes causadores de injustiças sociais. Em geral não é uma coisa que chega à grande mídia. Hoje é melhor, antes chegava menos ainda. Agora tem uns trabalhos legais, fortes, denunciando gente poderosa. Também há coisas muito boas no Ministério Público, na Polícia Federal, que a gente não via no passado. Como gente poderosa na cadeia.
O país está melhorando? Sim. Existem evoluções. Já na polícia, que lida mais com os pobres, aí o bicho pega ainda. Por exemplo, veja o caso da menina Isabella. Tem uma ação brilhante dos policiais. Mas a pergunta importante é: por que eles não trabalham sempre assim? Por ano, em São Paulo, 350 homicídios são arquivados por absoluta falta de investigação. Como é possível? A mesma polícia, a mesma cidade...
Mas não tem a ver com mídia também, com a comoção pública, a exposição do delegado? Eu acho que é preconceito de classe. Mas claro que às vezes a imprensa provoca esse interesse. Nesse sentido, a polícia é muito um reflexo da sociedade, ela reage como a sociedade reage.
A mídia cobre violência com exagero e ajuda a criar uma paranóia desmedida? Ver o noticiário vespertino dá a impressão de que tem um tiroteio em cada esquina. Alguns veículos sim. Mas em relação aos últimos 20 anos, hoje o assunto é tratado com nobreza. Repórteres de talento, com contexto, estatística adequada. Uma palavra fora de moda, mas atualíssima e necessária, é contexto. Se você põe as coisas dentro de um contexto, você não corre esse risco de falar de maneira exagerada de uma coisa que não tem relevância pública.
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