Já sabemos de cor as lições básicas para passarmos de uma cidade do temor para uma
do prazer. Ou nós as colocamos em prática ou continuaremos viajando para ver a bela
cidade que os outros fizeram POR CIRO PIRONDI*
“Se tudo é humano, então tudo é perigoso”
E. Viveiros
Na arquitetura os elementos de passagem são fundamentais. A janela é a passagem do olhar e da imaginação. A porta é a passagem física, corporal. Uma contempla as possibilidades da imaginação, do horizonte, a outra é seletiva pela sua natureza.
Vivemos em espaço de passagem: uma via, uma calçada são caminhos horizontais, um elevador e uma escada verticalizam nosso caminhar, espaços dinâmicos que nos incitam o percurso, a idéia de tempo e liberdade. Quando a arquitetura perde esses sentidos, fica carente de seu maior atributo.
As cidades contemporâneas, instaladas sob o signo do medo, são imensas massas construídas com quase nenhuma arquitetura. Gradeamos praças, nos isolamos em muros altíssimos em nossas casas e trancamos nosso olhar em janelas que não se abrem para o vento.
Qualquer possibilidade de “espaços vazios” é prontamente negada, quando deveria ser o mais desejado. Amputamos assim qualquer possibilidade de encontro e convivência livre.
Nossos espaços são vigiados eletrônica e fisicamente. Público e privado confundem-se, e a cidade, no entanto, considera-se moderna.
A cidade é um artefato das civilizações. Foi construída pela vontade humana de viver coletivamente. Sua origem remonta o instinto primário de união, convívio e troca.
Isolá-la em aeroportos vigiados, carros blindados, condomínios fechados é asfixiar seu mito de origem. Seu DNA é composto dos genes da liberdade do encontro.
MUROS INÚTEIS
A violência urbana tem sua origem na miséria. Não serão muros, repressão ou grades que a solucionarão. Isso apenas acirrará a exclusão. É necessária uma ação educativa transversal, capaz de olhar com generosidade nossas calçadas e ruas e perceber o que está acontecendo.
Inicia-se a construção de um pensamento ecológico-ambiental sobre as cidades. Percebemos que estamos em uma rota de colisão, uma certa guerrilha urbana capaz de inviabilizar sua existência.
Novos desígnios são necessários. Governantes não são gerentes das cidades, governantes devem governar democraticamente, esta é uma dimensão muito maior que a simples gerência. Precisam ser cada vez mais incitados a tomar conta de suas ações e de seus projetos.
Não há motivo para desacreditarmos das cidades e, idilicamente, pensarmos numa volta ao campo. É possível e desejado recuperar os erros cometidos, deixar os rios limpos e livres para o seu curso natural, usá-los como vias de transporte e lazer. Construir mais áreas verdes para o encontro e a contemplação. Ampliar o transporte coletivo.
A lição básica necessária para passarmos de uma cidade do medo para uma cidade de prazer e beleza nós sabemos de cor: basta fazê-la ou continuaremos viajando para ver a bela cidade que os outros fizeram.
* Ciro Pirondi, arquiteto, é diretor da Escola da Cidade – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, em São Paulo
|