Trip visitou os extremos geográficos de São Paulo para ver se a arquitetura do medo chegou a uma região que já teve ar de interior

POR CAIO FERRETTI | FOTOS JOÃO WAINER

Logo nos primeiros minutos circulando pelas ruas do Grajaú, na periferia da zona sul de São Paulo, ficou claro que um conceito antigo estava se alterando. Espremidos lado a lado, portões e janelas gradeados, aliados a lanças e arames farpados, redesenhavam o espaço urbano da região, colocando em xeque a teoria de que na periferia ainda existem pessoas vivendo com hábitos interioranos, desprotegidas de fortificações. As impressões de repórter e fotógrafo eram uma só: as grades dominaram todas as construções. Mas a paisagem metálica do Grajaú, bairro com maior concentração de pessoas vivendo em favelas na capital paulista, segundo o censo IBGE de 2000, é simplesmente o exemplo da nova organização da periferia de São Paulo. As portas estão fechadas.
“Acho que virou uma questão de hábito, um costume”, palpita a líder comunitária Maria Inês de Oliveira Santiago (foto na pág. ao lado), 45, moradora do Grajaú desde o início da década de 80. “Se você for a uma loja de material de construção, vai ver que as janelas já são fabricadas com grade. Já percebeu isso?” Uma cultura que não agrada em nada Maria Inês. Apesar de viver de aluguel em uma casa intensamente fechada, por diversas vezes ela diz que sonha morar em uma casa “igual às do Canadá”, sem portões de ferro, assim como as que vê nos livros. Mas acha que isso não é mais possível na periferia. “Não tem mais isso de tranqüilidade interiorana”, diz. “Antigamente, entre um vizinho e outro, os muros eram baixos. A gente tinha acesso um ao outro para bater um papo. Hoje, isso não existe, o pessoal se fechou.”
Há quem lucre com essa situação – e não são apenas as serralherias. Há 18 anos o caseiro Antônio Pinheiro de Souza faz bicos como pintor de casas na região do Grajaú. Mas o que realmente tem consumido seu tempo é uma nova modalidade de bico: a de manutenção e pintura das grades de ferro que fecham as casas. “É um bico criado pela violência, porque antes não tinha tanta grade. Aumentou o serviço e aumentou também o meu ganho”, diz ele enquanto termina de lixar um enorme portão, apressado para ir fazer o mesmo serviço em outra residência. “Há uns 15 anos dava a impressão de que a gente vivia no interior. Mas a criminalidade aumentou demais, e o povo se fechou em grades, como dá para o senhor notar”, completa Antônio, apontando para as outras casas da rua, entre elas a de Maria Inês. Uma situação que faz o caseiro pensar na abertura de uma firma e na contratação de ajudantes para dar conta do número de pedidos.

SEGURANÇA INTERNA
A verdade é que apenas os barracos erguidos com tábuas de madeira, cada vez mais substituídos pelas casas de alvenaria, parecem escapar do modelo gradeado das construções na periferia. Ainda assim, não é difícil encontrar barracos fechados com correntes e cadeados. Uma imagem que nos faz questionar a tese de que o tráfico garante a segurança dentro da comunidade. Mas isso ainda pode ocorrer em cantos mais isolados da cidade, com difícil acesso para carros, onde os braços do poder público mal conseguem alcançar. “A comunidade procura viver de bem com todos. Não acontecem mais assaltos por aqui”, diz Zailde Santos, moradora do Jardim Monte Verde, também no Grajaú. “Se acontecer, já sabe que depois vai ter que prestar contas, vai ter que devolver”, sentencia. Nas ruas sem asfalto do bairro, que fica à beira da represa Billings e mal aparece no guia da cidade, Zailde (foto na pág. ao lado) acredita ser possível viver sem se fechar em grades. “Quanto à segurança, de entrarem na sua casa, não tem problema. A menos que você tenha algum problema com eles”, conclui.
Quando questionados se é mais seguro viver na periferia ou nos bairros nobres de São Paulo, os moradores – escondidos entre grades ou não – são unânimes em escolher suas casas. Faz sentido. No ano passado foram contabilizados pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo cerca de 4,3 mil roubos e furtos no Grajaú. Nos Jardins, bairro nobre, foram cerca de 14,4 mil. “Não tem por que roubar aqui. Não tem carro de marca, não tem jóia, não tem nada”, diz Zailde. Uma matemática que faz sentido, mas que nas contas da líder comunitária Maria Inês nem sempre tem um resultado exato. “Algumas pessoas não se fecham porque não têm nada para ser roubado. São pessoas que mal têm um fogão. E mesmo assim alguns se trancam com medo de que levem o botijão de gás. Eles têm uma única coisa de valor. Mas já é o suficiente.”