Há o teto, e com ele existe a separação, o limite, a fronteira. E, se a coisa funciona assim em uma moradia sobre um terreno, pode operar do mesmo modo na paisagem mental do proprietário dessa mesma casa. Os dados podem indicar que o Brasil caminha para uma vida urbana no mínimo menos apocalíptica, mas a percepção dessa situação se mostra lenta, em alguns momentos parece ser mesmo uma invenção incapaz de convencer o público. Seria possível afirmar ser mais seguro andar nas ruas hoje do que há quatro anos? Tecnicamente, sim, mas o problema é que isso não faz alguém se sentir mais protegido. Nesse caso, a percepção é muito maior do que o fato.
“Você não reduz o medo da violência apenas com retração dos números, o quadro não é tão simples assim de ser lido”, diz Theo Dias. Advogado criminalista e professor da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, Dias estuda questões ligadas à segurança pública. “Tivemos uma degradação do espaço público, e esse medo da violência termina sendo o catalisador de outros medos. O medo do crime pode ser o indicativo de outras situações de insegurança, como o temor de mudanças sociais e econômicas. Por isso o medo do crime deve ser tão combatido quanto o próprio crime.” Um caso exemplar desse processo de catalisação dos medos é a situação dos países europeus, em que a sociedade reage contra a imigração e os imigrantes, pouco importa se os censos demonstrem não serem eles responsáveis pelo aumento do desemprego. Para os brasileiros, o fantasma é outro.
Na arquitetura da violência, a equação se torna ainda mais complicada porque ela não é baseada em uma fantasia, mas em números que evidenciam não ser a sociedade brasileira uma das mais calmas sobre a Terra. Seus problemas sociais cobram um preço, todos os elos da cadeia terminam pagando um. E isso gera um sentimento difuso, um pânico capaz de produzir uma resposta desproporcional ao ataque. Theo Dias acredita que se debruçar sobre os efeitos é tão importante quanto se voltar para as causas.

De que maneira é possível combater o medo do crime tanto quanto o próprio crime?

É preciso reconstruir o imaginário da cidade, procurar descobrir o que esse sentimento pode estar querendo dizer, o que está representando. Se você sair nas ruas e perguntar para as pessoas se elas se sentem mais inseguras agora, elas dirão que sim, mesmo que os números da criminalidade tenham diminuído. O medo do crime não é menos grave do que o crime.

São os fenômenos de catalisação em pleno funcionamento, certo?

Sim, por isso o medo do crime deve ser assumido, e essa é uma tendência que vem crescendo entre aqueles que estudam o problema. Se as pessoas sentem esse medo, é porque alguma agressão está acontecendo, seja ela política, econômica, urbanística; e assim essa sensação de ameaça permanece.

Andar pelas ruas pode representar um extenso passeio por idéias, dados, teorias, práticas selvagens em ação. Mas é ainda a chance de encontrar alguns sinais de otimismo, mostrando ser possível manter a cabeça para fora de um mar de previsões catastróficas para a vida brasileira. Isso pode não fazer a sociedade mais segura (ou minimamente mais justa), mas deixa perceber uma pequena fresta, fazendo passar o ar e a luz onde antes havia um muro fechado, sem nenhuma abertura, e com vigilância 24 horas.

* Marcelo Rezende é autor do romance Arno Schmidt (Planeta, 2005) e do ensaio Ciência do sonho – A imaginação sem fim do diretor Michel Gondry (Alameda, 2005). Curador da exposição “Estado de exceção” (Paço das Artes, 2008) e co-curador do projeto Comunismo da forma (Galeria Vermelho, São Paulo, 2007) e da mostra “À la Chinoise” (Microwave International New Media Arts Festival, Hong Kong, 2007).