“Estamos em um contexto social deformado”, diz Sônia Ferraz, arquiteta e professora na Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. “Mas não se trata de um acontecimento nacional, e sim internacional. É interessante. No interior brasileiro, os muros altos, câmeras e arames farpados são símbolos de uma cidade grande, são símbolos de crescimento”, diz ela. Sônia tem feito da “arquitetura da violência” um tema de pesquisa desde o ano 2000. Ela e sua equipe fotografaram cerca de mil residências e edifícios em Ipanema, Lagoa, Jardim Botânico, Leblon e Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, e em Moema, Jardins, Morumbi e Alto da Boa Vista, em São Paulo. Encontrou nessas imagens uma série de casos e um intenso processo de medievalização. A palavra se refere ao retorno de sistemas de proteção originados na Idade Média. Um período da história no qual o combate físico era uma experiência cotidiana. Sônia descobriu, disfarçadas ou evidentes, muralhas, torres de vigia, fossos, portões duplos, trincheiras e guaritas.
Quando começa a se expandir essa arquitetura do medo? Ela tem uma história?
Ela começa a ser percebida a partir da década de 90. Estudamos folhetos de propaganda de lançamentos imobiliários, e antes disso os sistemas de segurança não estavam incorporados aos projetos. Depois, tudo mudou. Assim surgem várias arquiteturas. Arquitetura de proteção, arquitetura da violência e arquitetura de mendigo – que é você planejar os obstáculos para que os mendigos não encontrem lugares para ficar nas estruturas das moradias ou perto delas.
Arquitetura do medo não significa apenas esses mecanismos evidentes de proteção citados por Sônia. Faz parte dele também o aumento de espaços fechados, centros comerciais isolados, climatizados e afastados do som, do aroma, do “teatro do ambiente”. O mexicano Ricardo Legorreta, um nome histórico para a arquitetura, ao visitar São Paulo e Rio no ano passado, vendo tantos shopping centers, perguntou se os brasileiros tinham medo do contato do sol e da chuva, do calor e do vento, dos elementos da natureza. Legorreta acertou pelo menos 50% da questão. Os brasileiros têm medo, isso é inegável.
PAVOR DOS NÚMEROS
Se existe o lado tão visível da arquitetura do medo, no extremo oposto há um outro e igualmente determinante elemento, mas sua particularidade está no fato de ser invisível, incontrolável e extremamente resistente, tão potente quanto a violência: o medo da violência. Segundo dados do Ministério da Justiça, os homicídios por arma de fogo têm diminuído no Brasil desde 2004. Naquele ano, foram 48.374 vítimas. Em 2006, 46.660. Essa redução parece mínima, os números são altos ainda. Mas, se olhados dentro do contexto, ganham um significado maior. De 1996 a 2003, os assassinatos foram de 38.888 para 51.043. A data do início desse processo é a mesma dada pela professora Sônia Ferraz, quando começa a ser percebido o aparecimento de sistemas de segurança como parte obrigatória dos condomínios em construção. Os fossos e as grades em forma de garfos gigantes não demoraram muito a chegar. Foram sete anos (como uma praga bíblica) em que brasileiros se acostumaram a ver todos os dias situações de descontrole, a TV sendo a janela dessa atmosfera. São Paulo e Rio ganharam o tom e o ritmo de cidades saídas de graphic novels, mas sem poder contar com um herói capaz de restabelecer a ordem. Agora, com os números recuando, é possível esperar por um desmonte das fortalezas para que o muro baixo e o portão de madeira – pintado de verde ou azul – possam ocupar o centro da vida urbana, certo? Completamente errado. Esse é um século todo novo, afinal, e cheio de surpresas.
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