É muito raro você ter a chance de caminhar em meio a uma idéia. Mas seus olhos a percebem enquanto você observa a altura dos muros, o material das grades ou nomes que aparecem sobre o concreto, impressos em chapas de alumínio com cores neutras ou em tons esmaecidos, quase desaparecendo: PABX Intelbras, 4utech, Detronix, Simtrack, Multitel, Acloman, Novacell, Osastec, Projemax. Nomes que soam como títulos de videogames, mas são empresas no ramo da segurança, integrantes de um negócio que envolve tecnologia, dados estatísticos, paranóia, oportunidade, homens (são 600 mil vigilantes privados no Brasil, entre oficiais e clandestinos) e muito dinheiro: no ano passado, os lucros foram de R$ 15 bilhões. Mas essa não é a mais interessante peça da idéia. É apenas o sintoma, não a doença. A idéia está interessada em outra questão. O que significa viver, morar e se proteger sob essas circunstâncias de medo permanente? E, talvez a pergunta mais necessária, medo de quem ou do quê?
A idéia é do arquiteto e teórico alemão Nikolaus Hirsch: a arquitetura se tornou o “control freak” do campo da arte, preocupando-se de modo obsessivo apenas com controle, segurança ou autoridade. Um dos grandes pensadores do papel da arquitetura hoje, Hirsch acredita que os arquitetos devem voltar a ter ambição de artistas e parar de se dedicar à construção sem fim de fronteiras. “Quando se fala sobre fronteira, ela deve ser entendida como algo físico. Cada construção cria fronteiras específicas. Parede, chão e teto agem como limites materiais separando o sistema interno do ‘teatro’ do ambiente. São responsáveis pelo controle ambiental; isto é, proteger e guardar.” Uma casa impossível de ser vista na rua, um edifício cercado de fios de alta tensão, a altura de uma grade, a presença de uma câmera, essa é a paisagem dos grandes centros brasileiros, mas não só. É a personificação da idéia de Hirsch. Ou sua perversão. E é o cenário de qualquer local do mundo em que as coisas tiveram que piorar muito até começar a melhorar – ou que ainda esperam uma melhora notável.
MEDIEVALIZAÇÃO DAS CIDADES
Os conceitos “proteger” e “guardar” estão na base da idéia de morar, de se abrigar sob um teto. Essas palavras se tornaram uma espécie de lema, um mandamento quase militar sobre de que modo ocupar e se organizar em uma grande cidade nas três últimas décadas. Para arquitetos e urbanistas, a “arquitetura do medo” é um campo de estudo: trata-se de pesquisar de que maneira uma comunidade se comporta, que soluções encontra diante de situações extremadas de violência, tais como ocupações militares e guerras civis. Mas a expressão “arquitetura do medo” tem também sido usada para explicar certos movimentos nas cidades de alta densidade populacional. São Paulo e Rio de Janeiro, para os brasileiros, são os grandes exemplos.
A arquitetura do medo aparece tanto nas zonas mais ricas quanto nas mais pobres, está presente em moradias ou em imóveis comerciais. Vigilância constante e separação da rua são os mandamentos. Há muito de tecnologia e organização (as grades nas janelas com um floreio, um enfeite, se parecem com objetos de decoração), mas também a
mais assumida gambiarra. Você pode comprar uma câmera de segurança vazia, sem nada dentro, apenas a casca, e instalar em sua casa. É mais barato, e os ladrões jamais saberão que se trata de uma maquete. Ou, se tudo isso estiver mesmo preocupando você e a intenção é investir, é possível construir um bunker em seu lar. Ele pode ser feito embaixo de casas e é equipado com comida e remédios, mantém uma família de quatro pessoas por 30 dias, deixando-as independentes do contato externo. No Brasil, 110 famílias já construíram bunkers em seus lares. São Paulo concentra a maioria dos casos. O preço vai de R$ 100 mil a R$ 2 milhões. |