Faltava descer apenas uma montanha para completar o projeto iniciado há mais de dez anos. No último dia de snowboard na gigante cadeia do Himalaia, na Índia, os irmãos gaúchos Leonardo e Oskar Metsavaht caminhavam sozinhos rumo ao topo do monte Deo Tibba, a 5.720 m de altura. Destino cuidadosamente escolhido por ser o segundo pico mais alto da região. O primeiro, Indrasan, com 6.000 m, estava nos planos da dupla, mas foi deixado de lado por respeito às crenças locais. Diz a lenda que o Indrasan é sagrado e inatingível, e não seriam dois brasileiros que acabariam com esse folclore. Respirando apenas 40% do oxigênio encontrado ao nível do mar, Leonardo e Oskar chegaram ao cume do Deo Tibba depois de algumas horas de caminhada. Sentaram-se, meditaram no isolamento em que se encontravam e começaram a preparação para voltar surfando na neve tudo aquilo que tinham percorrido a pé. Aí veio o momento de êxtase. Num primeiro instante, por conta da descida em montanhas tão perfeitas para o snowboard. Em seguida, pelo privilégio de poder parar no meio do caminho e observar cada detalhe do trajeto desenhado na neve, algo impossível quando o surf é no mar. E, pra fechar a conta, o orgulho de ver o irmão realizar a linha mais perfeita de toda a viagem. “Tão prazeroso quanto surfar aquelas montanhas é ver seu irmão atingindo o nirvana com o momento”, diz Leonardo. “A sintonia é tão grande que eu senti a melhor linha dele e tenho certeza de que ele sentiu a minha.”

Essas experiências estão retratadas no documentário Surfando as montanhas sagradas do Himalaia, que tem previsão de lançamento para este mês nos cinemas brasileiros. O nome diz tudo. Ao mesmo tempo que o filme traz cenas de ação com o snowboard, mostra muito sobre a cultura e a religião indianas. Na verdade, como o próprio Leonardo diz, o esporte é apenas um detalhe em meio a tantos atrativos do local. “Utilizamos o snowboard como argumento para nossas viagens ao redor do mundo, mas nosso foco é documentar lugares, pessoas e costumes interessantes”, define. “Para nós surfar não é um esporte, é conhecer culturas. É nos permitir fazer parte e interagir em um novo mundo.” Um conceito que está presente nos três filmes do projeto Surfing the mountains, criado em 1995 pelos irmãos Metsavaht. “A idéia era surfar as melhores montanhas do mundo”, relembra Leonardo. “Não as mais altas, as melhores. Nem sempre as maiores são as mais perfeitas para o snowboard.”

Em sentido horário, a partir do alto à esq., os irmãos Metsavaht aproveitam o retiro no topo da montanha para meditar; Oskar e Leonardo posam com as motos Einfield, da década de 60, que conseguiram alugar para rodar alguns dias na Índia; Oskar pratica ioga na preparação para surfar as montanhas geladas; Leonardo desenha sua linha nas montanhas do Himalaia
 
   

Com esse objetivo a trilogia começou em 1996 com uma expedição aos Andes, no Chile, resultando no filme Pucón: gelo e fogo. Nome justificável se levarmos em conta que a principal montanha surfada pelos irmãos foi um vulcão em atividade coberto de gelo. Experiência acrescida de uma dose extra de adrenalina depois que a lava derramada na última erupção do vulcão formou uma canaleta que corta a montanha de cima a baixo. Uma espécie de halfpipe gigante com paredes de até 30 m de altura. Três anos depois o projeto ganhou uma amplitude ainda maior com a ida ao Alasca. “Nessa viagem já tínhamos técnica de alta montanha e de snowboard, só que lá as dimensões são gigantescas. Ultrapassamos nossos limites, e foi aí que incorporamos o mental ao físico”, descreve Leonardo. A experiência foi importante para mostrar que eles não estavam preparados para tudo. Muito menos para uma avalanche. Um risco que persegue todo snowboarder e atingiu em cheio Leonardo durante um surf no Alasca. “Acho que a sensação é igual à de tomar uma vaca em Waimea Bay [Havaí]”, compara. “Você perde completamente a noção de alto e baixo. Tentei ficar tranqüilo, sabia que o Oskar viu onde eu estava caindo.” Sobreviveu sem grandes arranhões e com disposição suficiente para completar a série de expedições em busca das mais perfeitas montanhas para dropar. Fechando a trilogia, Himalaia.

Dalai Lama
“No budismo e no hinduísmo meditar é tão visceral quanto comer. Eles entram nessa experiência mística várias vezes ao dia. São truques para que a pessoa consiga, nem que por alguns instantes, remeter a si própria uma paz de espírito.” Leonardo sabe bem a importância que esses momentos de isolamento e retiro espiritual tiveram para que ele e Oskar conseguissem conquistar as montanhas do Himalaia. “Não é só colocar uma mochila nas costas e subir a 6.000 m de altura.” Nesse sentido eles podem dizer que foram bem assessorados. Tiveram a oportunidade de meditar dentro do templo de Dalai Lama, com monges cantando exclusivamente para eles. Sorte. Já tinham desistido de visitar o templo – depois de diversas tentativas frustradas para agendar uma ida – quando conheceram uma mulher que mantinha contato com os representantes de Dalai Lama. Não desperdiçaram a oportunidade. “Eu e meus irmãos fomos criados livres de qualquer preconceito. Isso nos permitiu compreender e aceitar qualquer cultura, como as técnicas de ioga e meditação”, ressalta Leonardo.

Fato compreensível para quem foi criado por intelectuais da medicina, por parte de pai, e da psicologia, por parte de mãe. Aliás, desde criança os irmãos tiveram as ciências misturadas aos esportes. No início da década de 60, o pai dos ainda meninos foi um dos pioneiros do surf no sul do país, de onde eles são originalmente. E os filhos seguiram o mesmo caminho. Separados por apenas dois anos de diferença – Oskar tem 46 e Leonardo 44 – , os dois são formados em medicina e apaixonados pelos esportes com prancha. Talvez esse seja o motivo que os mantenha tão próximos. “Nós sempre fomos muito parceiros nas coisas. Temos personalidades bastante diferentes, até opostas eu diria. Eu sou da medicina, da ciência, e ele da criação, da estética. Mas acho que é justamente por isso que a gente se completa”, finaliza Leonardo.

 
 
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