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Você começou a fazer roupas para você mesmo, não? É, sempre. Comecei e continuo fazendo.
Mas por quê? Era difícil comprar aqui? Aqui tinha só aquelas jaquetas Califórnia Racing, e não dava. Você sua lá na montanha e morre congelado com seu próprio suor. Daí que eu desenvolvi um tecido que permitia a transpiração. A primeira peça eu fiz com meu conhecimento de biofísica e ergonomia. Desenhei, e meu pai tinha um amigo em São Paulo que tinha uma fábrica de tecidos. Pensei em misturar náilon com algodão, e funcionou.
Era um casaco de médico, funcional, ou já era fashion? Era mais funcional, a calça também, só que ficou bonito, ficou legal, todo mundo gostou.
Por que você resolveu abrir uma loja de roupa de neve em Búzios? Não éque eu resolvi. Fiz pós-graduação na França. Já tinha escalado o Montblanc, ido aos Alpes, e sempre prestava atenção nos casacos de neve, nas lojas de esqui, de montanhismo. E via que o casaco que eu tinha feito era legal. Voltei em 88 e tinha duas opções: ou voltar para Caxias do Sul, ou permanecer na universidade. Como eu voltei com uma técnica nova, me convidaram para ficar no Rio e montar um serviço de reabilitação. Eu tinha uma graninha e queria mostrar o meu casaco. Não estava querendo vender, era muito mais mostrar que eu tinha feito algo legal, coisa que tenho até hoje. Pensei: “Como vou fazer isso? Não tenho experiência nenhuma, sou médico”. Na época, eu namorava a Milene, que trabalhava na Yes Brasil!. Batendo um papo sobre isso, ela disse que tinha uma modelista. Desenhei outros casacos, e a gente resolveu fazer a marca.
Por que Osklen? Osklen é metade do meu nome, com LEN, que é metade do nome da Milene ou do Leonardo, meu irmão que me ajudou a fazer o primeiro casaco lá atrás. É o simbolismo.
E a Milene? Ela morreu de câncer há uns cinco anos. Amigos sempre. Na verdade, ela ficou a melhor amiga da Nazaré, minha mulher. Tanto que a Milene morreu no hospital com ela. Fomos sócios até 92, 93. Ela até chegou a ter uma franquia da loja, mas depois abriu um negócio dela.
Como entra Búzios nessa história? Estava passando em Búzios, num fim de semana, aí vi que tinha uma lojinha para alugar. Eu novo, médico, nunca soube o que é empreender. Mas era viável. Búzios já era cosmopolita como é hoje. E montamos a lojinha com os casacos, umas T-shirts de animaizinhos, shorts de vôlei de praia. Abri no dia 10 de dezembro, com champanhe. Éramos pobrinhos, mas bacanas [risos]. Olha, sem mentira, cinco minutos depois de abertos, entra um italiano, o que é bem Búzios, e diz assim: “Maravilhoso, quero abrir uma franquia e levar pra Itália”. A gente não tinha nem nota fiscal. O italiano não acreditou, veio ao Rio atrás da gente na outra semana. Quando ele entrou viu que éramos só eu, a Milene e um boy que também era arte-finalista [risos]. A Milene cuidava da costureira e eu cuidava do design gráfico...
E fabricava tudo no Rio? Eu via todos os processos. Trabalhava como médico até as seis da tarde e me mandava para o subúrbio num Golzinho, para fazer as peças com as costureiras da fábrica de um amigo, depois do expediente. No sábado, abria a lojinha e vendia. Botava lá e vendia. Dinheiro no bolso de verdade.
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O sucesso da Osklen tem a ver com olhar de um jeito diferente para o negócio? De entender um estilo de vida e se voltar para ele? De apostar exatamente nisso. Sempre pensei em fazer roupa para mim. Se entendo a simbologia dessa tribo, consigo decodificar isso. Não acredito que existam nações geográficas. Existem nações de lifestyle. Sou muito mais parecido com um japonês, um americano ou um indiano que leia os mesmos livros que eu tenha lido, que tenha assistido aos mesmos filmes e tenha viajado pros mesmos lugares, sabe? Essa pessoa é bem mais parecida comigo do que o meu vizinho, que é carioca, é brasileiro e mora 10m em minha frente. Minhas lojas são 40 e poucas aqui e 10 lá fora, são um canal de comunicação de onde eu posso me expressar, mandar meu “oh”. E conecta. Porque o cara entendeu a linguagem, não porque é bonitinho. Tudo o que eu faço, do conceito da coleção aos filmes, tem uma coerência. A nação de lifestyle é um cinturão, um laço, é cultura, na verdade.
Você é vaidoso? Sou sim. Tem que ser, né? Sou leonino com ascendente em Virgem. Chamo atenção. Uso uns cremes, uns esfoliantes, protetor solar, xampu dia sim, dia não para manter um pouco da oleosidade do couro cabeludo. Mas não chego ao extremo. Sempre peço para alguém me avisar se eu estiver sendo ridículo.
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