Acha que o fato de você ser médico dá uma segurança? Ajuda, em várias situações. Por exemplo, eu estava surfando na Indonésia e quebrei o dedo. Estava há dois dias naqueles barquinhos de pescador, sabia que ia necrosar e perder o dedo. Dei a anestesia lá mesmo, no meio das galinhas, e pedi para puxarem meu dedo para voltar ao lugar. Fui para um hospital local, morrendo de medo. Deito na maquinha, coisa de filme, e entram os médicos, falando em indonésio, “ichiciicici”. Vi que iam me dar uma anestesia. Eu estava nervoso, pô, quem é o anestesista? Entra um cara meio molambo, aqueles olhinhos orientais, parecendo filme do Vietnã. Ele me dá a anestesia, e eu apago. Quando acordei, vi que tinha sido super bem-feito. Eles foram maravilhosos.

Você surfa desde moleque? Desde os 12 anos. Colava madeirinha na pranchinha de madeira para fazer uma quilha. Meu pai foi um dos primeiros surfistas do Rio Grande do Sul. Ele e o [empresário] Jorge Gerdau foram os dois primeiros.

E andava de skate também? Eu e meu irmão fizemos a pista de Caxias do Sul, a segunda do Brasil. A primeira foi em São Paulo. Era num clube campestre, mas eu não sabia o que era skate direito na época. Isso foi em 77, 78. Desenhei a pista com um arquiteto, os caras pegaram o terreno lá no clube e bancaram.

 


Tinha uma turma de skate em Caxias?
Só eu e mais os meus amigos. Imagina, em Caxias do Sul, no interior, a gente já surfava, mas estava a cinco horas da praia. Eu queria surfar, então o skate era a solução. Fiz meu primeiro skate. Quebrei os patins da minha irmã, cortei ao meio e preguei numa tábua. Só que não andava nada. Depois ganhei um daqueles banana boat, da Califórnia. Me lembro de sair de noite com os amigos. Loucurada, porque era tudo paralelepípedo. Não dava pra andar na rua. A gente pegava uma calçada com entrada de garagem que tivesse uma ondinha. Não era o street skate de agora, a gente procurava lugares que fossem parecidos com onda pra fazer os cutbacks, as batidas. Essa procura por um espaço, pela calçada ideal, que dá uma curvinha, é o que a gente faz hoje em dia nas montanhas do Alasca, do Himalaia.

É a mesma sensação? É, de experimentar e descobrir um lugar novo. O snowboard tem dessas coisas. Eu me lembro na época de olhar revistas de esqui, de montanhas, a National geographic, as revistas de surf. Hoje se pega uma prancha, põe na neve e anda. Concorda que é muito romântico surfar as montanhas do Himalaia? Percebi que é a mesma forma como eu crio as minhas coleções. Sempre fui muito dessa coisa de me jogar e depois me garantir.

E tomou muito tombo?
O tombo faz parte. Quem anda sabe que o tombo não é nada.

Tem religião? Acredito que espiritualidade é uma coisa de cada um, é um momento seu, de concentração, um momento de conectar consigo mesmo a ponto de perceber que tem alguma coisa a mais. Tenho muito mais fé no que nós somos, na nossa capacidade mental, e acho que a gente não aprendeu nada de espiritualidade ainda. Sou cristão, acho que Cristo foi um cara genial. Ele e a turma dele. Eles deviam ser uns caras inteligentíssimos, sensíveis, com sabedoria, e ensinaram o bem. Mas aí todas as igrejas pegaram aquele símbolo e pasteurizaram, começaram a fazer os McDonald’s todos que foram surgindo por aí. Com todo respeito, porque há vários valores bons em todas elas. Quando eu viajo, gosto de ir aos templos, às igrejas. Respeito a simbologia de uma igreja, do templo budista, sabe? Dou uma meditada para sentir. Que nem eu me senti dentro de uma tribo ianomami, dentro de uma oca, com uma lua entrando. Quando você sente aquilo, vem aquela luazona em cima de você... Pô, contatos imediatos. Eu me permito fazer uma certa simbologia. O sinal-da-cruz é o quê? É meditar. Sabe, várias religiões são formas de ajudar você a entrar num estado espiritual, meditativo, aí cada um leva o seu.

De onde vem o Metsavaht? Vem da Estônia e significa o guardião da floresta, em finlandês e estoniano, porque finlandês e estoniano é tipo espanhol e português. Só não têm nada a ver com Rússia, Lituânia, Letônia.

Já esteve lá? Fui pra Estônia há dois anos, convidado pelo governo, e agora virei cônsul. Eu não falo estoniano, meu pai até aprendeu com os pais dele, mas nunca me ensinou. Me perguntaram se eu sabia que meu sobrenome queria dizer guardião da floresta. Disse que sabia porque meu pai sempre me falava. Dentro de casa, sempre tive uma cultura ecológica. Então o sujeito falou: “Você tem que se orgulhar disso, porque não tem mais Metsavaht aqui, e a Estônia é o país que tem a maior área de florestas milenares preservadas até hoje no mundo todo”. Claro que é um país pequeno, mas 60% da extensão territorial é de reservas milenares. Isso é raríssimo na Europa. E foi graças aos Metsavaht.

Quanto tempo dedica à Estônia, agora que é cônsul? Eu estou indo semana que vem pra lá. Sou cônsul honorário. Como não tem ainda o consulado oficial, eu sou o consulado [risos]!

 
   

Por que você resolveu fazer medicina? Eu tinha 17 anos, né? Sou filho de médico de Caxias do Sul, acho legal medicina, tenho uma boa formação aqui e formação fora, fui pioneiro de uma técnica no Brasil, tenho meu nome publicado em livros e tudo, é a técnica de mesoterapia [que utiliza remédios em doses reduzidas]. O Leonardo hoje em dia é considerado um dos grandes mesoortopedistas dessa área, no mundo todo. Fundei o primeiro centro de reabilitação de medicina do esporte, tinha clínica aqui em Ipanema, de sucesso.

A medicina teve de competir com a Osklen? Até 96, 97, foi em paralelo. Tinha os horários que eu estava na Osklen de manhã, no consultório à tarde e ainda tinha hospital, plantão...

 
   
 
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