O que te motivou a documentar suas viagens de aventura em filme? Comecei a documentar as coisas na primeira expedição, em 1986, lá no Aconcágua [Chile]. Foi uma expedição dessas de filme, 30 e poucos dias na montanha, gente morrendo. Casca-grossa. Nós fomos na cara-de-pau e fizemos uma coisa bem interessante, uma expedição científica, com o Globo repórter acompanhando. Foi lá que vi o que é documentar. Nos últimos dias de expedição, estávamos a 5 mil e poucos metros e tivemos quatro dias e meio com tempestade de neve, sem sair de dentro da tenda. Imagina viver ali, sob vento, tempestade o tempo inteiro. Tudo é branco, frio, te arrebenta. É como se você passasse o dia inteiro derretendo água para poder fazer a comida. Daí, no meio da noite quando a tempestade pára, você acorda pelo silêncio. Abre a portinha de zíper e tem uma lua assim [abre os braços para indicar uma lua gigantesca]. Falei: “Caramba, não quero esquecer isso pro resto da minha vida”.

Tinha quantos anos? Vinte e quatro anos e meio. Estava fazendo meu último ano de medicina. Cara, foi a primeira experiência que eu tive assim de dizer “uau”. Foi tão forte que pensei: “Não quero perder isso jamais”. E você lembra das pessoas que ama e sente vontade de compartilhar. Quando voltei de lá, resolvi que queria escrever sobre aquilo, fazer um livro. Quando já estava numas dez páginas só pra
explicar essa sensação, percebi que não era comigo não.

Daí partiu para o filme? Já tinha experiência em filmar antes? Meu pai tinha super-8, mesa de edição, tudo isso. Eu e meu irmão Leonardo roubávamos os rolos dele de vez em quando, antes de vencer, e fazíamos nossos filminhos de skate, de surf. Aí compreendi um pouco a edição. Tinha aquela experiência e a de ter participado do Globo repórter. Em 89, 90, eu conheci o snowboard, que unia duas coisas de que eu gostava, montanha e surf. E aí, com uma camerazinha, comecei a filmar nossas trips. Nessa época, a SporTV estava no início e precisava de conteúdo. Sabe aquele filminho que você faz e mostra para os amigos? Vamos fazer melhor e passar para mais gente. Um dia, eu estava com o Leonardo em Vale Nevado, subindo de ski lift, e um chileno falou de um lugar com um vulcão. Era Pucón, que hoje todo mundo conhece. Ele contou de uma última erupção em que a lava tinha ido só para um lado e havia formado um grande canaletona coberta de neve, um gigantesco half-pipe. Nós decidimos documentar. Chamamos o Silvestre, um amigo que filmava em super-16, e fizemos o documentário.

Isso se tornou a série de filmes Surfing the mountains? A série é o projeto de dois irmãos que têm o sonho de surfar as melhores montanhas do mundo. Não pelo perigo, pela altura. É só para escolher a melhor neve, a melhor inclinação de montanha para a nossa capacidade. E nós sempre imaginávamos filmar no Himalaia e no Alasca, que são as melhores montanhas isoladas do mundo.

Passou algum perigo, algum apuro? O maior perigo é o avião chegar atrasado [risos]. Tenho uma coisa assim: se as coisas são perigosas ou ruins, eu deleto. Mas houve situações perigosas. Primeiro fomos a um glaciar, para tentar descer. Contratamos um piloto e perguntamos se ele conseguia descer lá e depois fazer o resgate. Ele topou, mas, quando pousamos, o avião atolou. Escavamos a neve e liberamos o avião. O piloto disse que ia esvaziar o tanque e voltar para fazer o resgate. Ficamos meio desconfiados, e o Leonardo disse: “Eu vou com ele”. Sabia que, se ele fosse, traria até a Força Aérea para nos resgatar. Ficamos eu e o Silvestre. Já estava começando a entardecer e nada. A gente começou a cavar a neve e estávamos nos preparando para dormir por lá, mas o cara voltou. O Leonardo pegou o cara e falou “meu irmão não vai ficar lá não”. Isso foi perigoso, porque lá não tinha nada, e o cara não ia voltar.

Ia dormir na neve mesmo? Eu já fiz isso, eu já dormi debaixo de neve, só em saco de dormir, no Montblanc. É como ficar na rua. Você entra no saco de dormir, fecha inteiro, se amarra nas pedras e deixa a tempestade de neve cair. É uma situação que você tem de controlar, mas é uma experiência boa. Você dorme exausto. É diferente de enfrentar um cara com uma arma ou dirigir... É mais perigoso dirigir pra Búzios de carro.

Você dorme bem? Quando criança, demorava para dormir. Não durmo quando acordo no meio da noite com uma idéia. Mas é bom. São as melhores idéias que se tem, né?

Acontece com freqüência? Hoje menos. Olha só como eu aprendi a dormir. Primeiro, dormi bem no saco em tempestade de neve, dormi naquele lá do Aconcágua. Num frio tão grande que o teu vapor do bafo bate no teto da tenda, congela, cai no teu rosto, e você acorda no meio da noite com um geladinho. Aprendi a dormir em montanha. E também tem a experiência do plantão médico.

Daí você tem de dormir quando dá... Fazia plantão em Cachoeira do Macacu. Fica na estrada para Friburgo. Eu trabalhava 24 horas no sábado. E estrada de noite, neguinho bebe, tem acidente de carro, essas coisas. Eu era o único de plantão. Em época de dengue, que chegava um atrás do outro, tinha uma fila gigantesca. E o pior é que de sexta pra sábado eu ainda saía na night. Eu fazia parto, tinha os acidentados, os bêbados chegando, gente morrendo. Era Mash. Eu peguei Mash no [hospital do Rio] Souza Aguiar, mas não sozinho. Você fica exausto, chega a doer a cabeça, mas você aprende a dormir 5, 10 minutos profundamente. Mas, quando chegava alguém, era ligar, pensar, curar e salvar. Tem responsabilidade de fazer tudo bem-feito. Botava a cervejinha na cadeira, não para beber, mas pra fazer um travesseirinho, para dar a altura, e dormia. Domingo de manhã eu saía do hospital, ia pra rodoviária, pegava o ônibus que vinha de Friburgo, tomava umas duas cervejas, deitava no corredor, no fundo do ônibus, e apagava. Isso foi um aprendizado muito bom para quando as crianças eram pequenas, eu acordava sempre para cuidar delas.

Como é sua relação com os filhos? Ah, legal. Quem não ia gostar de ser filho do Oskar da Osklen [risos]? A menina tem 15, um menino tem 12 e outro tem 9. A minha relação com eles é passar experiência.

É um pai severo? Severo não, eu acho que eu digo as coisas. Desde pequenininhos falo com eles como adultos. Faço uma coisa que aprendi com minha mãe, que é ensinar a pensar, entendeu? E vejo que está funcionando. Mas eles reclamam, falam mal: “Ih, pai, você vive falando cool.” E dá-lhe cool, cool, cool. Eles tiram sarro da minha cara [risos]. E falam: “Ai, pai, você é metido, pai, você não sei o quê...”. No Orkut tem uma comunidade Eu queria ser filho do Oskar Metsavaht [risos]. Daí eu falei pra eles: “Tá vendo, vocês ficam reclamando, mas tem toda uma comunidade que queria ser” [risos].

Teve outra experiência difícil em suas aventuras? O Leonardo pegou uma avalanche no Himalaia. Eu tinha descido na frente dele, filmando. Você sempre pára atrás de um rochedo. E tava um tempo muito fechado. Estava o Silvestre, o assistente de câmera, do outro lado filmando, e o Leonardo veio descendo. A gente estava num lugar que não devia estar. E vem uma avalanche. Aquilo durou uns 5, 10 segundos. Imagina ver seu irmão no meio da avalanche? Você não vê nada, tenta acompanhar com o olho, para ter uma idéia de onde ele caiu e correr para tentar pegar o sinal do transmissor e resgatar. A sorte foi que não tinha pedra pra ele bater nem nada. Quando percebemos que ele estava bem, eu olhei para o Silvestre e perguntei: “Pegou [a cena em vídeo]?”. Ele disse: “Peguei tudo [risos]”.

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