Bortolotto coloca o papo em dia com Ana depois de 17 anos de distância e descobre que “ela continua metidinha e charmosa”
MILES DAVIS
Encontrei a Chris à noite na Vila Cemitério de Automóveis, que ela dirige com zelo, dedicação e carinho, como tem feito com tudo ao longo de toda sua vida. Chris se investe de uma autoridade que às vezes nem sequer dá conta de ter. Mas ela é atirada e corajosa. Não é à toa que é mãe esmerada e amorosa de três crianças. A mais velha é minha filha. Ia ter um show logo mais na Vila. Antes de começar, dei a ela uma coletânea do Miles Davis. A gente alternava o balcão e o palco enquanto falava de tudo, sem nenhuma espécie de mágoa. O tipo de atitude que pessoas que se amam eternamente sempre vão ter.
Chris era professora de literatura e atriz. A gente se conheceu na festa de abertura do Festival de Tea­tro. Ela tava dançando e eu tava de longe, olhando ela se mexer. Saímos de lá direto pra uma república de estudantes e nos trancamos no primeiro quarto disponível, mas não rolou nada na primeira noite. Só ficamos deitados conversando. Mas passou a acontecer nas noites seguintes durante nove anos. Ela costumava me levar bêbado até sua casa e me preparava um prato de comida. Ela misturava tudo o que encontrava nas panelas da mãe dela, esquentava e me preparava um prato. Eu comia enquanto brincava com o Tog, o cachorro da irmã dela. Depois ela me emprestava sua bicicleta e eu ia embora de madrugada pedalando e levemente feliz. Foram nove anos juntos, de idas e vindas. O mais próximo que consegui chegar de uma família foram os três meses que morei com ela e a minha filha. Escrevi dois livros num computador velho e passeava à tarde pelo calçadão de mãos dadas com a minha filha. Não é tão ruim assim se você consegue, sabe como é?
Eu sei que terminei com ela porque me apaixonei por outra mulher quando me mudei pra São Paulo. Uma história de um amor fou que tinha que acontecer e que já estava prometida há muito tempo. A verdade é que entre Chris e eu sempre foi tudo muito transparente e muito sofrido, mas ocasionalmente muito feliz. Não podia deixar de ser.
Bortolotto e Chris encontram-se na Vila Cemitério de Automóveis, em Londrina, uma relação “sempre transparente e sofrida, mas ocasionalmente muito feliz”

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