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| Ana e Bortolotto no momento do
reencontro em
Londrina e abaixo em retratos da época do namoro |
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VAN MORRISON
Voei no dia seguinte pra Londrina. Eu ia me encontrar com Ana. Eu não a via há 17 anos. Fiquei sabendo que ela tinha passado por um problema de saúde bastante sério. Fiquei com vontade de ligar, mas sempre temeroso de encontrá-la novamente. Lembro que, depois que a gente terminou, eu a deixei bastante magoada por ter dado o seu telefone pra uma garota que era meio psicopata e que atormentou sua vida durante algum tempo. Não fiz por mal, mas me sentia culpado. A gente marcou num café no centro da cidade. Ana tem uma escola de crianças. Ela saiu no intervalo pra me encontrar.
Conheci Ana no Valentino, que na época era o bar mais bacana de Londrina. Assim que coloquei os olhos nela, fiquei imediatamente apaixonado. Eu entrei no bar e ela estava lá com algumas amigas. É a personagem principal do meu livro Bagana na chuva. Aliás ela é a razão de o livro existir. No livro ela é Ângela.
Engraçado que ela não sabia que esse livro era a nossa história. Foi uma amiga em comum que o entregou pra ela: “Sabia que você é a protagonista desse livro?”. Ela pegou o livro cética, leu e se reconheceu de imediato: “Caramba, mas sou eu mesmo. Ele se lembra de tudo. Como é que pode?”.
Ela continua metidinha e extremamente charmosa. Não é o tipo de garota que dá mole, se é que me entendem. Mas agora, 17 anos depois, ela me beija espontaneamente quando dou pra ela o disco do Van Morrison. Eu sempre soube que Ana tinha bom gosto, pra quase tudo e na maior parte do tempo. Sua única falha foi ter ficado comigo durante três meses. Ainda bem que ela não é perfeita. Ela fala: “Eu só lembro de coisas boas com você, Mário. Da gente andando pela noite, bebendo. Você era complicado, mas só lembro de coisas boas. Só fiquei chateada quando você deu o meu telefone para aquela maluca”. Foi ela que terminou comigo, como narro no livro. Eu criava caso, arrumava encrenca e dificultava tudo. E havia dezenas de caras na fila. Ela explica: “Eu pensava: ‘Qual é a do Mário, porra? Eu namoro ele, dou pra ele, gosto de estar com ele, e ele sempre complicando tudo, reclamando, criando caso’. Aí pensei: ‘Tem esse outro cara, bonito, disponível. Quer saber?’”.
E ela foi namorar o cara. E eu fiquei sozinho e muito mal, durante muito tempo. Tentei me resignar e não consegui. Então comecei a escrever o livro numa tentativa de me redimir de tudo.
À noite voltamos a nos encontrar, na Vila Cemitério de Automóveis, e ficamos conversando até de madrugada. Duas coisas que eu não fazia há muito tempo: conversar com Ana e beber Natu Nobilis, que era o único whisky que tinha à venda. Quando ela foi embora, eu a levei até o táxi. E fui ouvindo a voz dela, que é terrivelmente calma, como a dessas mulheres lindas que anunciam meteorologia nos jornais da TV. Tenho certeza de que não vamos ficar mais tanto tempo sem nos encontrar, e isso não me parece nenhuma previsão de tempo. |
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