Bortolotto é recebido por Rosi em Curitiba com “o mesmo abraço carinhoso, o jeito suave e absurdo” do passado


“Eu nunca cometo pequenos erros / enquanto eu posso causar terremotos” (Raul Seixas)

No filme Flores partidas, Bill Murray interpreta um sujeito que empreende uma viagem em que reen­contra suas ex-mulheres. Era pra eu fazer algo parecido e escrever uma matéria tentando decifrar por que, afinal, as histórias com as minhas mulheres chegaram ao fim. Não creio ser necessária uma matéria para entender as razões que culminaram no fim de meus relacionamentos. É tudo crônica de uma morte anunciada, tá ligado? É só olhar pra minha indigesta fachada pra mulher perceber que não vai dar certo. Mas também defendo a idéia de que, se eu fiquei uma noite com uma mulher e foi legal, então deu certo. Não sou do tipo que acredita em casamentos. Irônico e contraditório, já que fui casado três vezes, e dois desses casamentos duraram teimosos e inacreditáveis nove anos. Dia desses uma querida amiga me mandou um e-mail em que ela terminava assim: “E, quando o seu cabelo voltar a ficar branco, tente manter este ar de garoto sem dono que você tem” (ela se referia ao fato de meus cabelos estarem temporariamente tingidos por conta do filme Augustas, que filmei até poucos dias atrás). Acho que, por mais que tenha tentado obstinadamente me relacionar bem com alguém, tenho mesmo esse jeito que muitas mulheres me esfregaram na cara entre impropérios e pratos arremessados pela cozinha: “Você quer ficar casado e levar vida de solteiro”. Quando elas dizem isso não estão se referindo exatamente a traições nem a festas infindáveis com mulheres das mais variadas etnias. Apenas a porres homéricos e intermináveis madrugadas adentro, uma solidão devastadora e uma falta de companheirismo alardeado por elas ad nauseam. Sempre tentei aceitar como justificadas essas acusações e assinar qualquer BO necessário. Não sou exatamente o sujeito talhado pra assumir uma relação e deixar uma mulher feliz. Então por que acabo insistindo nessa idéia utópica e vez ou outra acabo lá com meus livrinhos malditos trancado no banheiro da casa de uma delas?
Então, sentado mortificadamente sozinho lá no chão da kitchenette ouvindo Furry Lewis, fiquei pensando que seria uma oportunidade não exatamente para acertar contas com o passado (acho isso solene demais), mas talvez resgatar velhas baladas para um iPod de última geração. E deixar as faixas riscadas tocarem, simplesmente porque, debaixo de todo o ruído, ainda é possível ouvir a canção.
Então o editor me disse: “Você leva umas flores pra elas”. Retruquei de imediato: “Nem fodendo”. Ele pareceu não entender: “Mas é o lance da matéria, no filme o Bill Murray...”. Fui enfaticamente pragmático: “Eu não levo flores. Nunca dei flor pra mulher nenhuma. Não vou começar aos 45. Não acredito em flores. Se eu chegar com um ramalhete de flores na porta da casa delas, vai ser um choque. Elas vão me mandar embora, vão me chamar de impostor e o caralho”. Resolvi comprar CD. Este sim era um presente verdadeiro. Ia comprar Van Morrison pra elas. Seria uma espécie de teste. Se elas não ficassem estupidamente felizes com o presente, então eu já ia entender por que terminou.

Ele a presenteia com um disco para testar o atual gosto da ex
ELVIS PRESLEY
Cheguei a Curitiba logo depois do almoço. Eu devia me encontrar com Rosi às 15h em sua casa. Hoje Rosi é apresentadora de TV e jornalista muito requisitada. Quando a conheci, ela havia acabado de entrar na faculdade de jornalismo. Lembro do primeiro beijo. Ela me mostrava orgulhosa alguns discos de Elvis Presley. Eram os piores da fase já caída do Rei. Em um momento de distração, enquanto eu tentava convencê-la de que uma música com o título “Ku-u-i-po” não podia ser considerada um clássico, roubei dela um beijo de leve, no que fui energicamente repreendido: “Vê se não vai se acostumar, hein?”. Eu a beijei de novo, passei a língua pela boca como se saboreasse um chocolate Prestígio e devolvi: “Ah, acho que não dá pra acostumar não”. Ela ficou puta comigo e foi assim que começou. Ela costumava me levar pra comer cheese-salada, e eu tirava as ervilhas do meu sanduíche e dava pra ela.
A gente se sentava em cima do telhado de casa e ficava chupando manga enquanto Rain dogs tocava sem parar lá embaixo. À noite a gente deitava no colchão velho no chão e ela me abraçava assustada com medo das ratazanas que costumavam andar sobre as vigas do quarto. Aí ela alugou uma kitch e a gente foi morar junto. Ela nunca foi de vida noturna. Eu era o contrário. Era tipo Feitiço de Áquila.
Eu bebia tudo o que podia durante toda a madrugada e baixava na kitchenette com o dia amanhecendo acompanhado de uma corja de amigos tão bêbados quanto eu. A escória da madrugada se esparramava pelo chão da kitchenette. Eu a abraçava. Ela levantava e ia pra faculdade. Nunca reclamou de nada.
Se brigamos uma vez em toda a nossa história fui eu que provoquei, só porque queria saber como os casais normais se sentiam. Eu disse isso no nosso encontro e ela retrucou sorrindo: “Eu não lembro”. Acredito que é da natureza das pes­soas suaves abdicarem da prepotência de possuírem uma memória prodigiosa. Eu diria na verdade que é da natureza das pessoas delicadas esse tipo de invejável memória seletiva. Eu terminei com ela porque não queria traí-la. Eu sabia que ia me envolver com outras garotas. Era iminente. Mas eu ainda a amava como o sujeito que ama o seu disco de rock preferido e, ao ver a casa em chamas, se atira dentro dela e só saí de lá com o LP debaixo do braço.
Quando cheguei a sua casa, foi tudo tranqüilo, como sempre foi tratando-se de Rosi. O mesmo abraço carinhoso, o sorriso encantador, o jeito suave e absurdo. Depois de conversar calmamente com ela, saí de lá e fui beber um vinho com o marido dela, o baixista e escritor Rubens K, que considero meu irmão. Fui eu que os apresentei e eles estão casados há 16 anos. Gosto de saber que são felizes, na maior parte do tempo, é claro. Gosto de saber que algumas pessoas conseguem aquilo que eu me sinto incapaz de conseguir.
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