DESCASCANDO O NABO
O início do festival esquenta a parte mais sagrada do templo, onde uma missa é celebrada para recordar a origem do festival, pedir autorização às divindades tutelares e agradecer as conquistas e frutos colhidos ao longo do último ano. O interior é repleto de rabanetes, nabos e outros vegetais em forma de vagina e piroca caralhões que vêm sendo colecionados ao longo de anos de festivais. No lado externo do templo, um grupo de agricultores oferece enormes tubérculos para a turistada e os japs literalmente descascarem o nabo. Aproveitei o ensejo e, com a mão na massa, criei um pirocão branco de grande proporção.
Já naquele instante a multidão não parava de me fotografar. Sim, pessoal, eu fui uma das grandes estrelas do festival, modéstia à parte. Não tinha jeito de ficar escondido. Usava uma megaperuca cor-de-rosa e estava envolvido por um quimono estilo arco-íris. A versão nipo-brasileira de Priscila, a rainha do deserto. Já devidamente enquadrado no esquema soltinho na marola, me dirigi para a área da concentração. Com seus trajes típicos, os participantes se aqueciam, oravam e se posicionavam para carregar os três relicários representando suas associações: o pinto preto de aço que representa os metalúrgicos, a piroquinha de madeira da associação dos comerciantes (incluindo membros da Yakuza) e o fallus cor-de-rosa da comunidade local, de drags e deste repórter desavisado.
Sinos, tambores e cânticos são embalados junto com fogos de artifício. É dado o sinal de partida. A turma do aço segue na frente, para delírio da multidão. O relicário de madeira é acionado, e senhoras, jovens e mafiosos entram em transe coletivo. Logo atrás o alegre grupo cor-de-rosa entoa um mantra que é repetido por milhares de pessoas (“Deika mara, deika mara, deika mara”). Não me pergunte como, mas quando dei por mim as palavras já saíam de minha boca naturalmente. À frente da romaria, um dos sacerdotes caracterizado de Tengu (mítico pássaro das lendas japonesas), com seu imenso nariz fálico, incendeia a galera incensando o caminho e limpando o ambiente para a parada borbulhar.
Meu grupo era composto de uns 20 japoneses recém-saídos do armário com perucas, vestidinhos, saltos altos, maquiagem, bijuterias e muita perna peluda. Na algazarra geral, famílias, vovozinhas e crianças insistiam em fotografar e serem fotografadas ao lado do fallus cor-de-rosa e de nossa comitiva de frente. Disparamos pela avenida central de Kawasaki, onde redes de TV, curiosos e documentaristas registravam a performance com os relicários e a descontração dos participantes. Dezenas de milhares de pessoas se espremiam pelas bordas das ruas lambendo seus pirulitos pirocudos e divertindo-se como criança em festa de aniversário.
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