Se você acredita que os japoneses são sujeitos recatados, é porque nunca ouviu falar no Kanamara Matsuri mais conhecido entre os estrangeiros pela alcunha nada singela de Festival da Piroca Cor-de-rosa. Secular rito de celebração da fertilidade, essa romaria fálica talvez seja o maior exemplo de como os japoneses lidam com o sexo e o que se passa na mente coletiva do arquipélago. Para conhecer de perto a famosa Piroca Rosa de Kawasaki em abril passado, contei com a ajuda de dona Emiko, uma guia que conhecia todos os caminhos que levam ao grande fallus.
No dia do evento, ela transbordava de felicidade. Minha mulher e eu éramos os dois únicos turistas a participar da excursão fálica de dona Emiko. Ela nos conduzia pela superlotada estação de Shinagawa para pegar o trem com destino à distante periferia de Kawasaki. A borbulhante dona Emiko explicava com um inglês impecável (raro no Japão) o caráter e a história do Kanamara Festival. Mesmo parecendo bizarro para os olhos ocidentais, dentro dos padrões japoneses o evento é normalíssimo. Perguntei se ela não ficava envergonhada diante de um fallus protuberante. Dona Emiko caiu na gargalhada, obviamente com as mãozinhas protegendo a boca. Respondeu que os festivais de fertilidade acontecem por toda a ilha ao longo do ano, principalmente na primavera. Não há por que ter vergonha de um festival que trate o sexo com tanta autenticidade, ela me diz. Fiquei na minha refletindo e cheguei à conclusão de que existem muitos conceitos e idéias preestabelecidas na nossa sociedade sobre a rigidez da sociedade japonesa.
A pérola de dona Emiko foi quando ela disse que era amiga do sacerdote do templo xintoísta que iríamos visitar e que, se quiséssemos, poderíamos desfilar carregando o pirocão. Fiquei exaltado. Na hora, tirei da mochila uma peruca cor-de-rosa e um pequeno robe de chambre. Disse a ela que tinha me preparado para entrar na romaria sem autorização, na cara-de-pau. Ela me olhou seriamente, disse que nós éramos seus convidados, que iríamos com crachá oficial e que poderíamos usar um pequeno galpão ao lado do templo, onde os japoneses se vestiam com quimonos dos mais diferentes matizes de cor para a parada.
Sintonizado com dona Emiko, a viagem terminou rapidamente, e logo estávamos atravessando a rua em direção ao templo xintoísta. Pelas ruas, o desbunde se desvairava. Emiko sacou da bolsa a típica bandeirinha de sinalização de guia perguntando: “Are we going to need this?”. Respondemos “nooooooooooooooooo”. Estava dado o tom da nossa romaria da piroca: a mais pura descontração.
Quando chegamos ao epicentro da concentração, a multidão animadíssima comprava acessórios fálicos, e, na parte frontal do templo, três relicários (mikoshi) com suas respectivas pirocas eram consagrados pelos participantes. O símbolo fálico estava espalhado por toda a área do templo xintoísta, em ilustrações, chocolates, velas, pirulitos, decorações e fantasias. Eis que a destemida dona Emiko surge como uma aparição, no meio da algazarra, colada ao sacerdote. Ela nos apresenta o mestre da Pirocoland, e somos agraciados com um passe livre e a permissão para carregar o fallus cor-de-rosa.
Fomos encaminhados para o local onde seria iniciada a minha transformação. Como num passe de mágica, um grupo de especialistas na arte de vestir o quimono montava meu visual nos fundos do templo. Quando me olhei no espelho, tomei um baita susto. Havia dado a volta no planeta para me transformar numa drag em uma comemoração japonesa. No início fiquei desconfiado. Depois de um tempo percebi que era o único ocidental a caráter na procissão, ao lado de um monte de japs aloprados, e acabei entrando no clima.
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