No comando do CQC, na Band
 
 



Já foi assaltado? Vivenciei alguns episódios. Morei em Copacabana, né? [Risos.] Oito anos. Tiro em Copacabana é coisa cotidiana. Convivi com essa guerra civil em várias etapas da minha vida. Mas nunca fui assaltado diretamente. A gente tem que andar dentro de um ecossistema, entendendo os códigos. Eu às vezes tenho uma intuição de que vale a pena entrar num lugar, mesmo que seja perigoso, e vou…

Acredita muito em intuição, né? Não é questão de acreditar. É questão de… ter essa experiência. A gente vive um momento especial de não poder ter preconceitos, sabe? Tem coisas incríveis acontecendo em todos os níveis, sabe? [Pausa] Uma coisa que eu tinha um certo preconceito... e que eu tive contato agora foi a ayahuasca.

Foi recente? Sim. Essas coisas da vida muito malucas... Vários amigos tiveram essa experiência e eu sempre fui reticente porque sempre tive um pé atrás com essa coisa química. E aí apareceram ao acaso uns ingleses querendo que eu fizesse um filme. Tivemos uma empatia instantânea, aí me convidaram pra um desses encontros onde tomam ayahuasca. E, realmente... a ayahuasca é uma experiência muito diferente daquela contra a qual eu tinha preconceito. Não é uma viagem de enlouquecidos primitivos. É uma experiência com uma planta milenar capaz de trazer níveis de consciência extremamente elevados. Foi incrível!

 


Onde foi?
Na Bahia, com esses ingleses e um xamã colombiano. Gente que eu jamais conheceria em Londres. Um deles é visconde para assuntos de tecnologia da rainha, e o irmão é um cara que faz os melhores esquis de neve do mundo, o Armada. Tinha DJs, um escritor maravilhoso com a mulher, uma turminha ótima. Fiquei dez dias. A tomança durou três noites. Coisa muito séria. E esse xamã é especial. Aí entendi o respeito que você tem que ter por isso. Não é algo recreativo. É uma viagem profunda. Exige ousadia.

Saiu transformado? Sem dúvida. Foi… foi uma experiência muito densa, até hoje estou impressionado com as imagens. O primeiro dia, especialmente… Tomei uma tacinha assim, e fiquei esperando, esperando e nada. Dali a pouco eu estou conversando com um camelo verde e pensando: “Pô! não vai acontecer nada?”. Aí de repente: “Ah! Um camelo...” [risos]. Pimba! Aí vêm as primeiras visões, as luzes... E, se você se preparar e perguntar coisas, as respostas são claras. Impressionante.

Pessoas também apareceram? Pessoas...

Pessoas mortas? [Risos] É, muitas. [Pausa] Tive muitas experiências assim, de estar morto. Muitas! Vi imagens muito bonitas... Não conheço nenhuma droga que consiga aquele nível de alucinação. Não é alucinação que você abre o olho e ela passou. É alucinação que você fica vendo tudo em surround, 3-D, full screen. Não é que você está bêbado e delira. Você entra dentro de outra plataforma. Sons incríveis! Aí eu fiquei uma hora dentro da terra, olhando. Aí aos poucos vi uma treliça de ferro e lá fora um céu lindo, azul... Fiquei olhando, olhando... mas que lugar é esse onde estou? Aí me veio uma memória nítida da infância, de quando andava nos túmulos em Ituverava, no cemitério, e tinha essas gradinhas… E eu ficava olhando dentro dos túmulos para tentar ver o pessoal morto.

Você estava morto. Eu estava morto e, de repente, passaram algumas pessoas, algumas delas pararam e me olhavam. Igual eu fazia. Aí gelei. Falei: “Nossa! Então sou eu que estou morto”. De repente, comecei a reconhecer as pessoas... Pessoas que tinham morrido, gente da família, meu irmão que morreu de Aids, meu avô, meus tios… Toda a galera. Eu estava vendo, não estava imaginando! Por um segundo, resolvi ter a coragem de chamá-los: “Cadê o tio Valdemar?”. É que ele não tinha aparecido [risos]. “Ah, ele está aqui!” Falei: “Ah, então vem!”. E nós demos um abraço, cara! E começamos a gargalhar... gargalhar, gargalhar, gargalhar... e pum! Foram embora. Foi uma delícia. Foi… foi como sair de uma sauna e pular numa cachoeira [pausa]. O xamã me disse: “Você é muito sortudo”. Agora... se isso for publicado, acho importante dizer às pessoas que devem pensar muito antes de tomar. Porque não é uma brincadeira.

Tas ensina às crianças que “‘porque não’ não é resposta”, no Rá-Tim-Bum, em 1995; descobre o Brasil no programa Netos do Amaral, em 1991; conversa com Fernanda Takai no Vitrine, em 2000; e dá uma de Sargentelli com suas Vareletes no espetáculo Ernesto Varela conta a história do Brasil, em 2005

E em sorte, você acredita? Claro! Claro que sim, porque, para mim, tem a ver com sensibilidade e às vezes sorte significa você entender sinais que parecem de azar, né? Tem dia que acontecem umas coisas, você diz: “Porra! Hoje acordei com o pé esquerdo”. E não: pode ser que ali tenha alguma coisa que te indique que seus planos merecem uma outra olhada. Nesse sentido eu gosto de pensar em sorte. Nunca joguei na loteria. Olho e falo: “Deixa ver para onde meu pé esquerdo quer me levar”. Se você ficar batendo no direito, pode se dar mal, né? Se você der uma chance para entender os sinais… Não sei se estou sendo muito Paulo Coelho… [risos]. Na verdade, meu mestre nesse assunto é o Spielberg!

Hein? Sabe a cena do cara com a espada, no Caçadores da arca perdida? A história dessa cena é um aprendizado pra minha vida. Naquele programa Inside the Actors Studio, perguntaram: “Spielberg, o que mais te aborrece numa filmagem?”. Ele: “A não-existência do acaso”. Porque o Spielberg chegou a um nível em que não acontece mais acaso. Todos os planos estão feitos. Aí ele falou: “Sou louco para acontecer um acaso: o acaso me obriga a ser criativo”. Aí está lá preparando a cena mais cara do filme, uma feira no deserto, 2 mil figurantes, todo mundo maquiado e tal, e o Indiana ia lutar com 200 neguinhos, derrubar, quebrar, pular... Toca o telefone do Spielberg: “Mister Ford está com febre e não vai filmar”. E o produtor: “Não! Porra! Caralho! A cena mais cara do filme!”. E o Spielberg: “Peraí!”. Adorou esse negócio, né? “Deixa eu pensar.” Ficou matutando, falou: “Pô! Mas eu tinha que fazer uma cena em que o cara ia lutar com 200 caras até ele matar um sujeito que faz mil coisas com as espadas... E se ele tirar o revólver e ‘pá?!’”. Nisso, os técnicos todos morreram de rir. Ele ligou pro Harrison: “Quanto tempo você fica de pé?”. “Quinze minutos.” Aí fizeram a cena... que antes não existia.

E é a cena que todo mundo lembra quando fala do filme. Isso para mim é sorte. É você entender um sinal e ser criativo. Não lutar contra a onda. Essa onda é maior que nossos desejos. Se não respeitar, vive frustrado. E muito amigo talentoso fica chorão. Muito triste isso. Esse deve ser o lampejo do artista. É onde se situam os meus ídolos: o Millôr Fernandes, sabe? Ele tira um sarro dele mesmo. Ele não pediu grana pelos malefícios da ditadura... Pelo contrário, disse: “Então não era ideologia! Era um investimento!” [risos]. Essa é outra coisa que me deixa mais otimista. Sinto uma generosidade maior na molecada de hoje do que na turminha dos anos 60. Não sei se é por causa das comunidades, que desde criança as pessoas já se relacionam, compartilham conhecimento... não têm essa avareza do “aqui é a turma da tropicália, aqui é a turma da bossa nova, aqui é do rock, do cinema…”. É uma geração enorme que está sendo formada desse jeito, mais livre, mais generosa. Acredito mesmo!

 
 
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