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Você mesmo demorou pra usar celular... É um método. Apesar dessa cara high-tech, sou rigoroso como consumidor. Só comprei celular depois de me certificar que funcionava. E fui enganado! Porque não funciona até hoje. O celular poderia ter passado da fase zero para o 3G. Uso celular para e-mail, internet... gosto de falar no telefone, mas naquele que não frita o ouvido [risos]. Uso um BlackBerry e um iTouch... que não é telefone, mas navega na internet, tem rádio, e-mail, vídeos, podcasts... [Mostra] Olha isso... são umas camareiras francesas ensinando a usar a internet... olha que maravilha elas fazendo guerra de travesseiros [risos].
Mesmo tão entusiasta da tecnologia, não vê um lado ruim no fato de nossas memórias serem cada vez mais externas? Graças a Deus! Antes elas não estavam em lugar nenhum [risos]. Os velhos gostam de falar “antigamente”... Antigamente se falava um monte de bobagens. Nosso querido Paulo Francis chutava e errava muito... mas não podia desmentir, né? Se criticasse, era um imbecil. Felizmente, tudo foi democratizado – principalmente a estupidez.
Voltando à política: você acha que o Brasil consegue vingar como potência? O Brasil não fez a lição de casa, nunca enfrentou de cara os seus conflitos, a gente joga para debaixo do tapete, deixa para amanhã. E o que o Brasil produz não é compatível com a vida que a gente leva... Me incomoda a incapacidade de se indignar. Nas pequenas coisas: você comprar um plano de telefone, não funciona e você não reclama, o banco cobrar uma taxa de R$ 3 de proteção... é um aplique. O sistema financeiro aqui é um gigolô de otários. E é um universo pouco documentado. O Michael Moore brasileiro tem um documentário caindo de maduro. O Brasil só vai ser um país decente quando o João Moreira Salles fizer um documentário sobre os bancos [risos].
Apesar de se indignar, você não é aquele típico legalista, o indignado... Não, pelo amor de Deus, esse cara é muito chato. Só acho que você tem que botar o pé neste país em que vive. E só passei a conhecer São Paulo quando coloquei meus pezinhos no Jardim Ângela. Virei voluntário numa ONG lá.
Na Casa do Zezinho. É. Há uns sete anos estava dirigindo publicidade e um pouco culpado por ganhar tanto dinheiro... e aí me chamaram para dirigir um vídeo institucional. E para resolver rápido, em três ou quatro dias, pois sou muito ocupado. E caí numa espiral de que nunca mais saí. Conheci as figuras mais experientes em qualquer assunto na cidade de São Paulo, gente que já passou pelas experiências mais radicais da vida com 9 anos de idade!
Você tem um núcleo de vídeo lá, é isso? A gente desenvolve coisas na medida em que os projetos surgem. A vida lá é agitada. As pessoas são muito criativas. No epicentro do bairro mais violento de SP tem uma organização de primeiro mundo. Conheci crianças com zero de perspectiva que agora são figuras que no mercado de trabalho dão de 10 a 0! Ninguém consegue competir com elas. E a Tia Dag, a líder, é uma figura que o Brasil precisa conhecer. O trabalho dela é o DNA de algo que deveria se expandir para o Ministério da Educação.
Ela é mais conhecida fora do Brasil... Ela é referência mundial. E ali não tem Photoshop, é a realidade. Um lugar com problemas, claro. Mas não tenho medo de ir ao Jardim Ângela. Levo muitos amigos lá, e não para fazer turismo. É bom que fique claro! Não estou levando eles para um zoológico para ver os pobres. Isso acho péssimo também. Tem acontecido muito essa coisa, vários empresários enfiam outros empresários num microônibus e vão fazer um tour pela favela. Ali ninguém está precisando de dinheiro, entendeu? Claro que é sempre bem-vindo quem quiser colaborar, mas ninguém está pedindo esmola na Casa do Zezinho.
Tem que ter um compromisso. Eu não tenho essa culpa do playboy – porque eu, lá, sou playboy, né? Mas nunca aceitei essa condição porque, bicho, trabalho desde os 15 anos. Claro que muita gente me ajudou, mas procuro dar conta das minhas coisas sem encher o saco de ninguém – e acho que esse é um bom lema, entendeu?
Poderia estar na bandeira do Brasil. É, em vez de “Ordem e Progresso”, né? Querer ajudar e ser bonzinho não funciona. A gente vive num país tão desigual que não adianta dar esmola. Você tem que pertencer ao país. Esse negócio de se blindar é dinheiro jogado fora. Tem que ir à rua, se relacionar, tentar entender lá por que é que você é assaltado na Faria Lima!
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| Bob MacJack, outro personagem inusitado criado na Olhar Eletrônico, em 1984; Varela entrevista João Ubaldo Ribeiro, Sergio Cabral e Juca Kfouri, na Copa de 1986; e passeia pelo Video Show em 1987 |
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