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Quando você se vê retrospectivamente desde o tempo da Aeronáutica, passando por Poli, ECA, TV, internet, teatro, jornalismo, acha que tinha alguma vocação em foco ou foi encontrando no meio do caminho? Meu estilo é muito sensorial. Sensitivo, espiritual, mediúnico, inconsciente... Não sou aquele cara que navega pela maionese porque acha que os búzios vão me dizer, mas tento perceber... por que é que não estou me divertindo, entendeu? Se uma situação começou a ficar muito chata, procuro tomar uma atitude.
Sempre foi assim, movido a diversão? Só posso te falar isso agora porque eu estou com 48 anos. Foi uma ficha que me caiu não faz muito tempo. Quando estava na Aeronáutica ou na Poli [Escola Politécnica da USP/SP], faculdade de primeiríssimo time, chegou uma hora que comecei a ficar infeliz. Pô, não pago pra estudar, campus sensacional, com uma piscina maravilhosa, por que estou infeliz? Aí fui escrever no jornalzinho da faculdade, virei editor e prestei vestibular pra ECA [Escola de Comunicação e Artes da USP/SP]. Na ECA também achei uma enrolação, aquelas aulas de sociologia, semiótica: “Vou ficar aqui quatro anos estudando isso?”. Encontrei grupos de teatro, de vídeo e descobri o maior tesão – igual agora estou com o maior tesão de fazer TV aberta de novo.
Você é procurado pelos jovens para falar sobre vocação? Muito! “Tas, entendo tudo isso que você fala no seu blog, gosto do programa, mas estou aqui em Tocantins, meu velho, como vou fazer isso aí?” Aí você tem que falar pra essa molecada que a vida é igual a uma cebola: você arranca uma casca e depois outra. Eu descobri que deveria fazer o CQC lá em Ituverava, quando me juntei a certo tipo de amigos... Aqueles amigos me levaram a outra coisa, que me levou pra outra. Tem gente que quer dar saltos triplos: “Você não pode me apresentar alguém na Bandeirantes ou no UOL?”. Não é assim. Sua vida vai mudar de acordo com a pessoa que está sentada em sua frente ou ao seu lado, sua namorada, seu amigo, alguém que você esbarra na rua, não é um telefonema pra Nova York que vai ajudar. Você tem de estar ligado no presente – coisa que a gente não consegue. O mundo hoje nos impede de viver o presente, a gente está sempre muito acelerado.
Uma vez você me disse que a gente está sempre angustiado com o passado e ansioso com o futuro... E não está no único lugar onde a vida pode mudar: o presente. Escutei isso de uma mestra hinduísta de meditação, filosofia que pratico há uns 15 anos. É uma linha de meditação que se chama siddha yoga. Essa mestra, a Gurumayi Chidvilasananda, que vive num ashram ao norte de Nova York, foi aluna do Baba Muktananda, o cara que trouxe a siddha yoga para o Ocidente nos anos 70.
E a hatta yoga, que você pratica? É pro corpo, tem exercícios físicos de respiração. Siddha yoga é uma filosofia, uma linhagem de conhecimento que vai lá pro fundão da Índia, o Mahabharata, a literatura dos Upanixades, os livros sagrados que existem há milênios. A beleza do hinduísmo é que não tem uma bíblia, um alcorão, uma única corrente a seguir. Isso me incomoda. E eu fui criado na Igreja Católica. Felizmente, descobri a meditação no início dos anos 90.
Você desliga alguma hora do dia? Sim. Desligo uma hora do dia e me ligo no presente [risos]. O único objetivo da meditação é acalmar a mente. Existem várias técnicas: a mais simples é prestar atenção na respiração. Se você passar cinco minutos só fazendo isso, vai ser mais feliz.
Todo dia? Sim. Minha disciplina é irregular. Atualmente, faço logo quando acordo. Ninguém me tira dali, nenhum telefonema, e como eu tenho me acordado cedo isso tem sido fácil.
Muito cedo? Sou obrigado. Tenho filhos, uma menina de 2, muito agitada, a Clarisse, e um de 6, um gentleman, muito tranqüilo, o Miguel. E tenho uma filha de 19, já fazendo direito na PUC do Rio. E acordo cedo pois tenho muitas coisas pra cuidar durante o dia, além de outros pepinos profissionais. Nunca passo das 8h.
Então não tem ligação com a boemia? Pior é que tenho! A boemia está no meu DNA, é uma das coisas boas do interior de São Paulo. Gosto de sair com amigos, beber e conversar. Mas tenho feito cada vez menos. Tenho grandes amigos... o Alfred Bilyk, o Pedro Cardoso, o Hugo Barreto, o Henrique Goldman, o Fernando Meirelles... A gente se fala muito, em momentos delicados. O Fernando tem uma vida agitada, a gente não se encontra com freqüência, mas no e-mail conversamos bastante. E tomamos sauna de vez em quando. Só nós dois. Ficamos umas três horas conversando, mesmo com todo esse barulho que circunda nossas vidas, sobre coisas mais profundas – porque é uma dificuldade sentar com um amigo e não encher o saco dele falando de grana, trabalho ou mídia...
Aí não se fala de nada importante, né? Exatamente. Não falar das coisas importantes, aquele assuntinho, né? A morte. E a vida e o que fazemos nesse curto espaço de tempo que daqui a pouco vai acabar.
Isso te incomoda muito? Não incomoda, mas me move. Toda vez que alguma coisa começa a ficar muito importante, algo que eu iria ganhar uma grana ou poder ou ia me deixar bem na foto, relativizo. É difícil você se colocar na condição de mortal: o mais comum é ser imortal como José Sarney, acima do bem e do mal [risos]. Desde criança eu tenho essa inquietação... Como é que a gente pode estar aqui comendo uma picanha na Via Láctea enquanto tem tantas outras galáxias por aí e a gente não sabe porra nenhuma do que acontece? Aliás, todo jornal devia vir todo dia com a manchete: “A gente não sabe nada do que está acontecendo”. Aí o trabalho, quer dizer, a arte, o teatro, o cinema são lugares em que você se aproxima um pouco dessa busca pela verdade... algo se encaixa no corpo, igual depois que você sai de uma acupuntura. |