Como é que te apareceu esse CQC? Olha, caiu no meu colo, do céu. Conheci os caras do CQC na década de 90 – estavam começando na Argentina e participamos de um debate em Buenos Aires sobre TV. Eles conheciam o Ernesto Varela, trocamos fitas VHS na época e eu os acompanhei, fiquei fã. Quando a Elisabetta [Zenatti, diretora artística da Band] me chamou em janeiro, achei que fosse sondagem. Fui lá, ela jogou: “Conhece o CQC?”. E eu: “Há dez anos!”. E ela abriu a porta e disse: “Espera aí que você vai ver que é verdade”. Aí entrou o diretor do CQC, levei um susto... e percebi que eles já estavam com o programa pronto pra estrear, em março. E eu tinha uma viagem pra China de dez dias, ainda ia cobrir o Carnaval de Salvador pro UOL, foi uma correria... Mas me atirei. Justamente porque o CQC é uma extensão de várias coisas que já fiz. Só que meu papel lá eu nunca havia feito: o de âncora.
Você é o chato do programa, virou o Cid Moreira... Fico falando “Pára”, “Atende”, uma espécie de Professor Tibúrcio [do Castelo Rá-Tim-Bum] do jornalismo [risos]. E estou descobrindo o quanto essa função é difícil... Aí, para o time, foram arregimentados outros nomes, repórteres, atores, gente que veio do stand-up comedy.
Que é forte no Brasil hoje... Esta é a novidade: a força da palavra. Nunca entendi por que o stand-up comedy não vingava no Brasil. Assim como não entendia por que não tínhamos um CQC. Estava preparado pra fazer o CQC desde os anos 80 [risos]. Essa bola estava quicando na área e ninguém chutava. Num país que você tem tanto problema de produção, só um cara e um microfone, com histórias loucas e opinião, é tão fácil...
Acha que os espectadores sentem falta de opinião? De opinião com qualidade. Está sendo oferecida muita informação empacotada, bonitinha, mas na hora da opinião tem pouca ousadia. Essa é uma palavra-chave hoje.
Verdade... hoje tem muitos Caios [Caio Ribeiro, ex-jogador do São Paulo, comentarista de futebol na Globo] e poucos caras como o Neto [ex-jogador do Corinthians, comentarista da Band], um cara meio destrambelhado, mas que de vez em quando manda uns acertos geniais... Exatamente! Tem poucos Netos no Brasil. Ele é um cara engraçadíssimo, espontâneo, o que é raro. Talvez porque exista pouco espaço pra esse tipo de ousadia. Nos EUA, na Inglaterra, existe esse tipo de opinião aguda, programas de alta qualidade e populares.
O David Letterman [apresentador do talk show diário The Late Show with David Letterman, no canal norte-americano CBS] é um cara que tem uma tradição em ser incisivo... E chegou ao topo, né? Começou lá na madrugada. O Letterman eu acompanho desde 1985, da primeira vez que viajei pra Nova York. Entrava no ar à uma da manhã, era um Perdidos na noite. Que aconteceu? Foi assimilado sem perder a ousadia. No Brasil a ousadia precisa ser domesticada pra entrar.
Será nosso caráter cordial? Não, não. É burrice empresarial. Pra mim é muito claro, porque o público quer ousadia. Tem outro componente que a gente não pode se esquecer: a maior parte das concessões de TV no Brasil, especialmente fora da matriz das emissoras principais, está nas mãos de políticos. Você sai de São Paulo, Rio e Rio Grande do Sul, tudo nas mãos de políticos. Na Bahia, no Maranhão, a TV e o principal jornal estão nas mãos da mesma família há 40 anos. Pra que o cara quer ousadia naquela vida mansa?
Voltando ao Neto... no clássico contra o São Paulo, o Valdivia fez um gol e saiu tirando onda, como se tivesse acabado o jogo. Aí partiram pra cima dele. O Neto defendeu: “O cara não pode dar uma zoadinha?”. Este é um ótimo exemplo de alguém que representa um mundo photoshopado: o Rogério Ceni [risos]. É um cara que tomou um frango na semifinal e falou: “O problema é a bola...”. Ele tem que estar certo até quando leva um frango! É um grande goleiro, mas levou um frangaço, afundou o time. Acontece. Eu acho um horror essa sociedade que quer tudo bonitinho...
Mas por que ousadia é tão rara na TV brasileira? A gente conversou há uns três anos, você estava encantado com o Pânico... De lá pra cá, o que apareceu de novo? Olha, com o CQC isso está mudando [risos]. Eu não estava com saco de ver TV aberta. Todo mundo joga na defesa. O Casseta & Planeta ainda é um programa ousado, mas tem 10 anos! É uma loucura.
O CQC gira num eixo que está na sua carreira, chocar o jornalismo com a ficção – de certa maneira, é o eixo do Big Brother... Eis uma boa chance pra falar: o Big Brother faz sucesso porque é uma ótima idéia. Esse atrito me interessa: realidade e ficção. Gera o quê? O inusitado, que não se vê na novela. A novela está abaixo do Big Brother. Todas com o mesmo cenário... aliás, parecido com esse restaurante [risos]...
Talvez estejamos dentro de uma novela... Talvez tenha alguém filmando nossa conversa pra botar na novela das oito. Todas as novelas poderiam ser filmadas na Tok&Stok! E estamos num país que em cada lugar a luz é diferente... O sotaque nem se fala! Com todo o respeito pelos meus colegas, o pessoal perdeu a mão. Os roteiristas de novelas estão cansados, é uma coisa muito brocha. O Big Brother revelou que o texto da Ritinha conversando com não sei quenzinha, a Thammy ou a Jéssica, é melhor que o texto daquele cara que ganha 250 paus por mês. |