Golpe da vida
No início de 2001, Rickson Gracie tomou o pior golpe de sua vida: a morte de seu filho Rockson. O rapaz de 19 anos estava havia quatro meses longe da casa dos pais em LA, tentando uma carreira como modelo em Nova York. Depois de tempos sem notícias do filho, Rickson e sua mulher, Kim, descobriram que Rockson havia morrido três semanas antes. Foi enterrado como indigente. O corpo foi reconhecido pela tatuagem que Rockson tinha no braço, “The Best Father in The World: Rickson Gracie”.
A família, na época, afirmou que ele sofreu um acidente de moto. A polícia, na época, disse à imprensa que Rockson foi encontrado em um quarto de hotel. Suspeita de overdose.
Os pais reclamaram o corpo. As cinzas foram jogadas no mar de Malibu, a praia favorita de Rockson.
Rickson não se sente à vontade para falar sobre isso em nossa entrevista. Mas já escreveu um livro, ainda não editado, sobre a tragédia e como lidou com ela.

É um assunto bem difícil, mas preciso perguntar sobre a morte do seu filho Rockson... Cara, não acho que vale a pena a gente falar disso. Precisaria falar muito em vez de algumas frases. E as pessoas vão interpretar errado, eu prefiro não falar mesmo. Fiz um livro a respeito, ainda não editei. Mas aqui, nesta circunstância, não acho que cabe às pessoas saberem como me sinto em relação a isso. Prefiro reservar isso a minha intimidade e não ao público.

A família Gracie é realmente dividida? Em que sentido?

Depois da tragédia com o Ryan, foi dito que parte da família não se fala... Evidentemente que em business não existe ligação. Minha academia não tem ligação com a do Renzo, a do Rorion. Isso muitas vezes cria uma certa diferença de interesses. Existe uma competição saudável. Não existe inimigo na família, gente que não se fala. Da minha parte principalmente, falo com todos, eles gostam de mim...

Como você vê a morte do Ryan? Negligência médica. Ele já estava sob a influência de alguma substância, o cara encheu ele de remédio e o coração dele não agüentou.

A família está tomando que tipo de providência em relação a isso? Não sei, rapaz. Não estou a par.

Você já experimentou drogas? Já. Nascido e criado no Rio de Janeiro... Eu acho que, pra você dizer que viveu, tem que experimentar as coisas. Simplesmente se tornar uma pessoa isolada do que acontece é uma forma de fuga, medo, exclusão. Quando se fala em droga é açúcar, aspirina, maconha, cocaína, metanfetamina. Tudo são substâncias que alteram e causam dependência. Se você me pergunta se eu sou contra ou a favor, é muito relativo. Droga pode ser remédio. Tem gente que se trata com maconha. Muitos índios usavam drogas para entrar em estados espirituais. Não sou ninguém para questionar se pode ou não pode.

E quanto à legalização? Acho que, em um nível político e social, na minha opinião todas as drogas têm que ser liberadas. Porque tiraria o crime da questão. Qual o problema da droga? É você não saber administrar. Se você é dependente, até de açúcar, está mal. O problema é como você se relaciona com a droga. Aí pode ser doença, prazer, aventura... Proibindo, cria-se um mercado paralelo que alimenta o crime. Legalizando, passa a ser apenas uma questão médica e ajuda a favela a se livrar do tráfico. Claro que, mal administrada, a droga é o maior problema que tem. Mas aí é algo pessoal.

E você teve alguma má experiência com drogas, alguma dependência? Não. Graças a Deus, na minha juventude, sempre baseando minha vida no esporte, sempre foram aventuras esporádicas. No dia seguinte acordava já preocupado em treinar. Isso sempre me trouxe de volta ao padrão metódico. Talvez, se não tivesse outras aspirações, poderia me perder. Mas elas sempre tiveram um peso irrelevante na minha vida.


 
 
 

Como é sua rotina. Um dia típico seu? Parece até brincadeira falando, mas eu me divirto o tempo todo. Sou muito agradecido de poder viver minha recreação, meu trabalho, meu ganha-pão... tudo envolvendo prazer. Ou estou treinando, ou pegando onda, ou dando aula. Tenho uma rotina lúdica.

E como é seu treino? Quatro vezes por semana, musculação. Três por semana cardio. Todo dia uma ou duas horas de movimentação de tatame, com sparring ou sozinho.

Como você sente o tempo no seu corpo? Aí vem a experiência. Eu não trabalho as mesmas horas. Se reduzo o tempo em 20%, a qualidade desse tempo será 100 vezes maior do que anos atrás. Tento agir de forma a multiplicar meu tempo pela minha experiência e pela inteligência.

Como? Continuo pegando onda, só que só quando o mar tá bom, com a melhor onda, a melhor prancha. É um surf melhor do que quando tinha tempo para surfar o dia inteiro indo de ônibus para a Prainha. Cuido mais do tempo, da qualidade, seja treinando, fazendo amor, brincando ou dando uma entrevista.

E você está com quantos anos? Xi, esqueci há muito tempo. Faz parte da minha maneira de pensar não falar minha idade. Acredito na força mental, e educar sua mente a repetir sua idade é um grande defeito. Você enquadra uma idade que tira você da perspectiva sem tempo. Eu não tenho problema nenhum em ter nascido em 1959. Mas não sei quantos anos eu tenho. Se você diz que tem 30, 50 anos, fica em uma situação inconsciente de que não pode mais fazer o que você fazia com 15. Prefiro responder a uma atividade de 18 anos, ou de 100 anos. O mais importante é estar pronto! Pronto para ser uma criança, inconseqüente, responsável, para o que a vida te demandar. Senão você começa a se limitar. Eu não tenho problema em envelhecer. Eu estou pronto. X


 
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