Existe mesmo essa rivalidade agressiva entre academias? É uma tradição?
É que nem São Paulo e Corinthians... Olha, eu vou muito ao Japão. E fiquei chocado quando soube que toda província brigava entre si. Não precisavam de inimigos fora do país, saíam no pau o tempo todo. Era um xogum contra outro, dentro daquela filosofia de arte marcial de respeito e conduta. Acho que a competitividade está no homem. Quem é o melhor, o número um. A gente está aí para conquistar uns aos outros, em todas as áreas. No esporte eu vejo isso como construtivo até. Se você perde para uma academia, começa a treinar, treinar e vai ganhar depois. Isso acelera o nível.

Mas e invasão de academias, pancadaria? Só disputa no nível moral. Quando dois professores têm problemas e querem brigar, podem envolver as academias. Mas aí é um desvio moral, um desequilíbrio.

Já participou de coisas assim? Fiz coisas desse tipo. Sem arrependimento. Nem meu nem das pessoas envolvidas. Houve um pacto de cavalheiros. No fim, se cumprimenta e vai embora com o rosto amassado. Sempre houve honra.

Tem ou teve inimigos? Já passei por várias experiências que me deixaram com essa energia negativa. Mas a primeira coisa que faço é tentar me livrar desse tipo de emoção. Não é difícil pra mim, porque já me acostumei. É entender que o que não tem solução já está solucionado.

Quando você começou a ganhar todos os torneios, chegou a se achar demais, se sentir o dono do mundo? Sim... na primeira fase, com uns 16 anos. Comecei a perceber que era bom, que estava acima da média, minha cabeça funcionava de forma diferente. E comecei a me sentir especial e querer provar isso para todos. Para alimentar meu ego, na minha insegurança de teenager. Depois que confirmei que era bom mesmo, com o ego lá em cima, aí tive que fazer minha estrutura. Comecei a entender que minha exposição tinha que acompanhar uma filosofia, um exemplo. Ver que, mesmo dentro da minha disciplina, não era diferente das pessoas que estavam à volta. Poderia ser o melhor no jiu-jítsu, mas tinha que respeitar os talentos em outras áreas. Não vejo diferença do que faço para um grande advogado, um grande médico, um grande músico. Isso me botou em uma situação de base onde eu não me vejo melhor que ninguém. Mas, dentro do meu universo, me sinto superior. Por isso, até hoje me sinto superperfeito.

Você parece gostar muito de quem você é. Muito. Nunca me arrependi de nada que fiz.


 
 
 
 



Isso não pode ser sinal de arrogância?
Não, o que eu faço eu assumo. Muitas vezes não foi a melhor opção, foi um erro. Mas você tem que aceitar que quando você errou foi a melhor coisa que você pôde fazer. O mais importante é não ter intenção de fazer o mal. Isso eu nunca fiz. Então arrependimento é algo que não cabe.

Você já apanhou? Não... acho que não. Nunca aconteceu essa tragédia.

E seu pai nunca te bateu? Nunca. Em casa se tivesse porrada envolvida ia ser um problema grande. Era na base do respeito. Ele era bem general... eu preferiria apanhar a tomar esporro dele, que você sentia na pele mesmo.

Na entrevista que seu pai deu para a Trip há dez anos (Trip 58 - clique aqui para ler) ele disse que nunca amou mulher nenhuma, que as encarava em um patamar diferente. Você se identifica com isso? Não. Respeito muito a liderança que ele teve na minha vida, o relacionamento que teve com a minha mãe e no segundo casamento. Mas pra mim a base da coisa é o amor. Não pode ser uma coisa baseada na procriação, no sistema patriarcal. Valorizo o relacionamento entre homem e mulher como base da família.

Você fala muito de seu pai. Mas qual o papel da sua mãe na sua formação? Minha mãe foi sempre muito submissa ao meu pai, sempre foi uma pessoa doce. Mas, pelo grau de submissão ao meu pai, não mantinha a disciplina que poderia como uma mãe dura. Via um zero no boletim e falava com meu pai. Teve um pequeno lapso de disciplina em mim. Ela sempre passou a mão na minha cabeça, perdoando tudo. E acho que o papel da mãe tem que ser mais de educadora, faltou isso.

O quê? Disciplina, dar mais valor às conquistas. Ficava a princípio achando que tinha a obrigação de ser bem tratado. Eu era meio reizinho em casa: era bom em jiu-jítsu, meu pai adorava isso em mim, eu era praticamente intocável. Deu certo, mas poderia ter dado errado.

Você já se rebelou contra seu pai? De uma forma inteligente, sim. Eu pegava a própria maneira dele de ser. “Eu nunca estudei e sou o que sou”, ele falava. Um dia, eu disse que não queria mais estudar, tinha 13 anos. Ele deixou, mas disse para não pedir dinheiro pra nada. Peguei minha prancha e fui pro Sul, passei dois meses na casa de um amigo. Todo mundo preocupado. Voltei com outra atitude, comecei a dar aula com meu irmão, ganhar uns tostões. Aí comecei a sentir falta da merenda, das gatinhas, da social do colégio... e voltei. Mas só colégio de baixa reputação. Passei até no vestibular para educação física, mas nem cursei. Já estava bem no jiu-jítsu, ganhando mais do que um diretor de banco.

Você está separado da Kim... Isso eu não tô a fim de falar, não.

Mas hoje está namorando, sossegado? Estou bem feliz e tranqüilo no Brasil.

 
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