Você se considera agressivo? Não. Sou muito tranqüilo.

Mas a imagem dos Gracie não é tranqüila... Essa imagem de brigadores da família está totalmente ligada ao produto que a gente vende: o jiu-jítsu em forma de eficiência, muito diferente de você ser agressivo desordenadamente. Quando você tem confiança, se torna eficiente, mais ponderado, tolerante. Grandes lutadores são muito tranqüilos.

O que é violência para você? É fruto da insegurança, do medo e da covardia. Não acredito em violência sem razão. É gerada por algum fator, que geralmente tem a ver com insegurança. Pra mim, violência é algo mais mental que físico.

Mas essa imagem da briga de rua, de gangues, de grandes covardias, muito associada à popularização do jiu-jítsu, é bastante violenta. Você não se sente de alguma forma responsável por esse fenômeno? De forma alguma. Muito antes do jiu-jítsu sempre houve covardes, grupos que usavam de uma superioridade física para fazer maldade. Isso não é da arte marcial, é de índole. O jiu-jítsu dá poder e técnica ao elemento. Eu tenho e tive muitos alunos que se tornaram grandes homens, que venceram na carreira com a confiança do jiu-jítsu. E tive outros com má índole, que mesmo antes de entrar na academia já batiam nos outros, e agora batem com mais eficiência ainda. São covardes eficientes.

Então qual a lição principal na academia? O ideal é que a arte marcial aumente a autoconfiança, a disciplina, o respeito, o autocontrole. Se você não controla seu próprio instinto, perde pro seu oponente e na vida.

Esse é o segredo? Não, mas é fundamental. Você tem que saber se controlar. Nas horas de pânico, saber respirar, mentalizar, visualizar. Isso é parte da metodologia, da disciplina, coisas que são do esporte. Uma técnica emocional.

 
 


Você é considerado o maior lutador de todos os tempos porque nunca perdeu uma luta; tem um cartel de 460. Por quê?
Treinei isso a vida inteira com meus irmãos, primos, amigos, alunos, profissionais. E toda a vida o Rickson sempre foi bem-sucedido porque houve uma série de componentes que estavam juntos. Uma dedicação à saúde, uma velocidade mental, uma capacidade de controlar as emoções, uma capacidade de ser agressivo sem se descontrolar. Como um leão: ele está pronto para matar, mas está calmo, paradinho, esperando a hora certa de pular.

Não tem um gene aí, um destino? Essa dualidade de manter quesitos morais e mentais eu não escolhi. Sinto que foi um presente de Deus. Alguns irmãos e parentes não me acompanham no mesmo ritmo. Eu simplesmente uso bem o que Deus me deu. Até onde vai o que eu fiz e o que provoquei, é difícil dizer.

Antes da entrevista, você me adiantou que é um cara reservado, não gosta de se expor demais. Como é sua visão da imprensa? A mídia tem que expor. O público é curioso e o jornalista quer vender o que ninguém sabe. Vai muito da maneira de como o repórter edita e de como o entrevistado expõe a própria imagem. Vejo a mídia como um facilitador enorme.

Mas a sua reserva toda em falar se deve a quê? A intimidade deve ser falada em um campo pessoal. Não tenho prazer em me expor para o mundo. Não levanta meu ego.

O prazer está onde? Em seguir minha missão, ser bom exemplo, servir de liderança para que pessoas me tenham como referência. Assim como traficantes são exemplos de conduta para milhares de crianças no morro que nascem sem muitas opções. Para eles é o herói. Procuro, através da minha exposição e do meu esporte, me tornar uma boa influência para as pessoas que se interessam pelo que eu digo.

Isso para muita gente pode parecer incoerente, você se tornar um exemplo apesar de sua imagem quase sempre ser associada a uma surra que você deu... Você pensa que muita gente te vê como quase um monstro, um matador? Porque a imagem final que chega para a grande maioria é pela TV e é extremamente agressiva, com gente brigando mesmo, apanhando feio, sangrando. Mas eu nunca pensei nisso. Porque toda a minha vida foi voltada a lecionar jiu-jítsu, que, na tradução, é arte suave. Quando você está de frente para um aluno é para resolver um problema dele. É fazer ele se sentir melhor, mais corajoso, alerta e mais pronto para viver. Desde os 14 ajudo meus irmãos a darem aula, nesse parâmetro vejo uma coisa totalmente nobre e digna. Através da eficiência física e da disciplina, fui capaz de ajudar milhares de personalidades, de formar pessoas mais equilibradas. Vejo o jiu-jítsu quase como uma religião, não como combate.

Para quem não entra em uma academia, a maioria das pessoas, a imagem que o esporte passa é mais ligada à brutalidade que ao equilíbrio. Isso tem a ver com a popularização do MMA [Mixed Martial Arts], do UFC [Ultimate Fighting Championship], do Pride. Meu pai fazia vale-tudo nos anos 40, 50... Mas isso nunca fez a imagem dele como a de um cara violento. O conceito do vale-tudo é um desafio entre estilos. Qual a melhor arte marcial. E nós, os Gracie, apostamos tudo no nosso jiu-jítsu. Então a gente estava sempre disposto a provar, a conferir as coisas em que acreditamos. De certa forma, isso não abraça violência, não tem soco na cara, nariz sangrando. É mais imobilização, técnica. Meu pai tinha 60 kg e brigava com gigantes. Meu irmão Royce é um cara leve e ganhou de gigantes do UFC. Mas, com a difusão desse esporte, existe uma nova raça de elementos que se prepara em todos os estilos para se confrontar em cima de uma regra bem violenta. Se tornou um esporte extremo que não é coerente com nenhuma disciplina. Ali você é simplesmente um gladiador. Realmente, não tem um lado filosófico, um sistema disciplinar, é mais o sistema do pitbull. Exatamente por isso estou criando uma nova linha de evento...

Qual? É uma liga chamada Budo Challenge, um circuito profissional de lutadores. Que pretende, como no circuito do WCT, fazer etapas internacionais e qualificar os Top 44. Todos nessa liga vão ganhar dinheiro, como nos rodeios, no surf. Um evento que resgata a parte tradicional das artes marciais, aumenta muito a dinâmica da luta e tira aquele confronto selvagem. É menos sangrento, mais dinâmico, tem mais técnica e vai dar uma boa profissionalização a tantos milhares de atletas que não querem se profissionalizar no MMA e não têm opção para ser profissionais de quimono. Como grandes lutadores de jiu-jítsu, como o grande judoca Flávio Canto, que, a partir do ponto que já ganhou a medalha, ou pára ou abre uma academia. Eu fiz o primeiro piloto e agora estou tentando viabilizar comercialmente. Estou muito animado com isso.

Vai pro tatame ou vai só dirigir? Vou só criar o conceito, estou praticamente parando de competir. Mas meu filho está superinteressado...

Ele vai ser campeão? Já é campeão. E tem tudo pra ser também no Budo Challenge.

 
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