Da esq. para a dir.: satisfeito depois da vitória para 30 milhões de expectadores na primeira transmissão de vale-tudo em canal aberto, Colosseum, Japão; professor Rickson treina alunos em Tóquio; tudo em família. Papai Rickson treina Kron, seu filho, já campeão mundial de jiu-jítsu
 


Onde está essa força ruim?
Na consciência. Está criada no ódio, na covardia, no medo, na inveja. É criada no homem. Não está na natureza. Se você der mole e um tubarão te pegar ele não foi mau, só seguiu o instinto. Maldade está em você saber que poderia ajudar uma criança e não ajudar. Ou saber que você está agindo de forma incoerente com o que é certo para conseguir dinheiro ou alguma facilidade. Usar de covardia, roubar, por interesses pessoais. Mas o bem simplesmente tem mais poder. Mesmo que venha uma guerra atômica e mate todo mundo, eu acho que o bem vai criar tudo de volta. Por mais maldade que o ser humano faça, que ele queira fazer, não pode neutralizar a beleza da natureza.

E você é pessimista em relação ao futuro do planeta? Não sou pessimista, eu sou realista. A gente vai ter que se adaptar. É uma obrigação de todos nós buscarmos uma solução para lidar com a realidade.

Acha que a sociedade, política e economicamente falando, é capaz de se adaptar a tempo? Não. A mente humana é muito egoísta. É fator gerador dos problemas da humanidade. Um cara que produz petróleo vai vender petróleo até acabar, não vai pensar em oferecer água limpa. E o que está sendo feito é muito pequeno em relação à necessidade do planeta. Está chegando aí a qualquer hora o fim dos tempos, quer dizer, fim do petróleo, bomba atômica... essas porras vão vir a qualquer hora.

Você pensa muito nisso? Não penso mesmo. Não me preocupo com o que não existe. Só vivo a realidade.

Pensar nisso não significa se preparar, se prevenir dos riscos, como uma luta? Certo, a preparação estratégica é válida. Mas preocupação, perder o sono, a falta de entendimento de que mesmo que você queira, tem coisas que você não pode mudar. Como em uma luta mesmo, posso até antecipar problemas que meu oponente possa me causar, treinar para isso, mas não vou perder o sono. Tenho que aceitar que, eventualmente, na pior das hipóteses, poderei perder e acordar nessa situação.

Por que voltou a morar no Brasil? Foram quase 20 anos de EUA. Sou muito grato pelo que consegui em termos de educação para os meus filhos, por oportunidades profissionais. Mas existe um vazio em viver fora do Brasil que é irreparável. Nós precisamos de uma troca de energia, de uma situação sentimental que não existe lá fora. Isso acabou enchendo o meu saco. Agora estou tentando manter meus negócios overseas e uma sede aqui. Eu sinto que no Brasil eu consigo receber energia e dar no mesmo nível. Lá eu sinto que estou sendo sugado e eu não tenho uma maneira de reciclar isso.

O que nos EUA te suga as energias? É mais do coração, de como me sinto, como me posiciono no mundo. Vivo pela razão, mas obedeço meu coração. Estar feliz é o mais importante.

Sempre foi assim, com preocupações energéticas, espirituais? Desde que comecei a entender isso. É importante que a gente tenha sensibilidade pra entender valores importantes... Outras pessoas baseiam a vida em cima da grana, da carreira ou de conquistas.

E qual é a sua base? É me sentir emocional, moral e intelectualmente feliz. Não é dinheiro, não é o que está acontecendo à minha volta: é como eu me sinto.
Hoje você está se sentindo bem? Não poderia me sentir melhor.

Como foi sua infância? Como a de todas as pessoas que tiveram uma boa infância, foi equilibrada. Tive muito amor em casa, bons conselhos e um certo controle. E, vindo de uma família tradicional das artes marciais, quando você começa a se posicionar no mundo como um Gracie começa a ser apontado com um próximo campeão. Vai ser igual a seu pai, não vai, será que vai ser bom ou vai descambar pra outro lado? E logo eu fui me imbuindo dessa condição de ser um Gracie, me relacionar com o jiu-jítsu de uma forma profunda, entender a coisa de uma forma não só filosófica, mas também profissional.

Então sempre quis ser lutador? Desde pequeno já queria ser lutador, competir, agradar meu pai, as expectativas. Meu pai não ligava pro colégio. Não queria saber de boletim, queria saber de medalha de ouro. E essa era uma forma boa de me relacionar com ele.

E o boletim como era? Sempre vermelho. Nunca fui de estudar. Gostava de matemática, ciências.

E na rua? Cara, eu sempre fui um soldado do bem. Mas muitas vezes, até pra proteger alguém ou me sentir um herói com testosterona, eu brigava na rua. Meu pai sempre ensinava que se você está errado pede desculpas. Se está certo tem que estar pronto para morrer pela razão. Baseado nisso, quando você vê alguém ser maltratado... Eu era meio metido a ser xerife. Você bota esse tipo de influência, uma boa dose de testosterona e muita ignorância por ser um moleque... dá uma forma meio agressiva.

 
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