Rickson, Rorion e Royce, sob a tutela do papai Hélio Gracie nos anos 60
 
 

Você está pronto para sua última luta? Estou muito otimista de que este ano aconteça... talvez seja mesmo a última. No meu coração, não tenho mais nada a provar pra ninguém. Confesso que a maior motivação é trazer um conforto para meus filhos, até hoje eu não tenho condições.

Não? Não tem um pé-de-meia considerável? A gente não pode pensar assim. Não interessam as conquistas do passado. Se você tem a oportunidade de matar um búfalo enorme... Eu me sinto um caçador, um provedor para a minha família. Não poderia recusar uma chance dessas.

Então vai ser uma bolada. É... vou pôr meu burro na sombra.

De quanto é sua bolsa? Não posso falar mesmo. Questão de contrato, confidencial.

No Japão? Sim. É onde tem o circo mais bem montado. Tá em andamento, mas como não tem nada assinado, definido, só mantenho meus dedos cruzados.

Você é idolatrado no Japão, não? Não posso andar na rua no Japão. É muito difícil. Eles são loucos por artes marciais, pela maneira do guerreiro. E eles puderam vivenciar diante da minha experiência o que na teoria eles tinham através do Musashi, dos grandes guerreiros. Hoje, no Japão, eu represento um samurai moderno, que de certa forma serve de referência para muita gente.

Esta última luta vai ser com o Sakuraba? Não sei... Especulação! Por enquanto não posso garantir, mas está perti­nho de fechar. Sei que muita gente gostaria de lutar comigo para colocar minha cabeça num muro. Muita gente fala do Sakuraba, o matador de Gracie, né? Se for ele, vai ser ótimo.

Você não perde essa? Por que iria pensar em perder, a essa altura do campeonato?

Não pode nem pensar em perder? Tem medo da derrota?
Rapaz, o medo eu vejo como um sinal de inteligência, sinal de preservação. Tanto que meu maior medo é sair deste mundo. Tenho medo de morrer porque não sei o que vai acontecer. Eu só tenho medo daquilo que eu não conheço, porque eu não posso calcular o perigo, como agir. Claro que eu tenho medo, como todo mundo. Mas eu negocio com esse sentimento de uma forma muito simples. Procuro me ajudar fazendo o que posso fazer para me proteger. Mas na hora da luta eu deixo todo meu medo já no hotel: não chega ao ringue nem ao vestiário. Depois de certo ponto, quando não há uma situação que não seja racionalmente previsível, eu entrego a Deus. Aí meu medo acaba, porque entrego minha vida à minha missão e perco o medo de morrer, porque tudo está entregue a uma determinação superior que não está na minha mente.

Você se sente uma outra pessoa quando entra no ringue? Não. Eu tiro totalmente a consciência e entro em uma zona de vazio. Minha mente deixa de raciocinar e eu passo a viver dentro do meu instinto e do que eu treinei. Não penso em nada, em ninguém, não escuto barulho. Somos só eu e o oponente.



Você fala bastante de Deus; é um cara espiritual? Muito. Não ia a igreja ou seita. Mas meu pai me fez entender nossa relação com o universo. Que não escolhemos quando viemos, não vamos decidir quando vamos. Que existe uma razão para tudo. E temos que honrar esta missão: a gente está aqui para servir. Não podemos desperdiçar potencial ou qualquer outro recurso. Isso me fez ser uma pessoa atenta ao contexto, à natureza, à relação que eu tenho com as pessoas, ao respeito que tenho à evolução natural das coisas. Não acredito que acabe tudo quando morre ou que a pessoa nasceu vinda do nada. Acredito que existe uma bagagem espiritual.

Mas acredita em um deus que nos observa? Minha definição de Deus é a única coisa que você não pode explicar, que é o espaço que existe entre todas as moléculas e átomos. Que faz tudo girar. Da mesma forma que os átomos no fundo não se encostam, a Lua não encosta na Terra, o universo macroatômico e micro são a mesma coisa. Um pedaço de tecido é igual a um pedaço do universo.



E você tem algum ritual?
Eu rezo. Procuro esvaziar minha mente de pensamentos e procurar abrir um canal para uma entidade superior desconhecida e aceitar as informações que a gente não fala e não vê.

Acredita em uma força maligna? Claro. Mas acho que o bem vence o mal.

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