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Engraçado. Rickson é especialista em algo que não conhece: a surra. Um animal que não conhece predador, cedo ele percebeu que a única pessoa que poderia domá-lo seria ele mesmo. Fez disso a sua vida e deu no que deu: o maior lutador do mundo. Há muito tempo na toca, hoje está pronto para o grande bote. Sua última luta. Em 460 lutas oficiais, ele nunca perdeu. Por isso nosso entrevistado é a presa mais cobiçada do reino da pancada. “Tem gente louca para colocar minha cabeça no muro”, ele se orgulha. Será um evento épico no Japão, terra onde Rickson é idolatrado: transmissão ao vivo, documentário nas mãos de José Padilha e Marcos Prado. Só falta uma data e o nome do adversário. Quanto ao cachê, ninguém no fight business duvida que será o mais alto já pago a um lutador de desafios. De cifras, Rickson não fala. É segredo.
Também com os fatos ele é contido. Não fala sobre a pancada que tomou do destino em 2001, quando seu filho Rockson, então com 19 anos, morreu em Nova York. Não fala sobre sua separação de Kim, a mãe de seus filhos. Nem se alonga sobre a recente morte do primo Ryan. É vago quando fala do passado, retém detalhes. Mas é assertivo e monolítico quando define seus conceitos. |
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Assim como seu corpo sólido, toda sua certeza parece conter algo sob pressão. Rickson é seco, direto, calmo e objetivo. Nas duas horas de conversa gravada, não fez uma piada. Não há risos nas páginas a seguir. Mantém os olhos fixos nos do repórter e fala pausado, em tom doutrinário, de alguém que, humildemente, já se sabe um mestre. Por isso prefere derramar o verbo em mandamentos: “Ser bom exemplo, servir de liderança para que pessoas me tenham como referência”.
Há quem possa achar estranho tomar como exemplo um sujeito que, para as massas, é um triturador de homens. Porém, o que acontece no ringue não passa da manifestação extrema da disciplina e do autocontrole, lições herdadas do pai, Hélio Gracie, 94, patriarca do jiu-jítsu brasileiro que ganhou o mundo (Trip 58). Lições tão físicas quanto filosóficas, transformadas em títulos por Rickson e seus irmãos, que fizeram do sobrenome uma grife de ensino de arte marcial. Para o lutador, a herança não são a eficácia e o sangue no ringue, e sim a confiança que seus alunos aprendem para levar a vida.
Além de selar com milhões seu currículo, a luta que deve ser realizada até o fim do ano marcará o início de sua carreira de cartola. Insatisfeito com o rumo ultraviolento tomado pelos torneios de vale-tudo, Rickson idealizou o Budo Challenge, novo circuito de lutas que pretende resgatar o quimono, a técnica e o respeito às artes marciais clássicas e definir os 44 melhores lutadores dos estilos de lutas mais voltadas para o solo.
Após 18 anos de Los Angeles, onde mantinha família, negócios e uma academia muito bem-sucedida, Rickson está de volta ao Rio de Janeiro. Treina todo dia, rotina que inclui musculação, exercícios cardiovasculares, movimentação de tatame, yoga. Surf, sempre que dá. Bebe água sem parar, come seis vezes ao dia, dorme cedo, evita festas e imprensa. Rickson precisa de sossego. Precisa estar atento. Precisa estar pronto para sair com tudo de sua toca. Pronto para o último ataque.
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