PEDALADAS NO PARQUE
O piloto Paulo Salvallagio, o Paulé, foi um dos grandes
chapas do Jacaré. “Ele era amigo de verdade.
Dava atenção para todo mundo. Vivia duro, mas
quando tinha dinheiro adorava comprar presentes para os outros.
Era considerado doido, mas, no fundo, nunca deixou de ser
criança. Ele não se conformava em simplesmente
correr: tinha de ganhar, sempre.” Paulé conta
que eles alimentavam uma rivalidade sadia, que rendeu momentos
curiosos: “Certa vez, a minha máquina não
pegou na largada e ele ficou me esperando! Um bom trecho
da corrida ficamos brigando na pista, até que o mandei
buscar os outros concorrentes, e ele ganhou a prova”.
O gosto pela velocidade e por corridas surgiu logo na infância,
quando a família trocou Poços de Caldas pela
Aclimação, em São Paulo. O moleque tinha
3 anos. Cresceu organizando corridas de carrinho de
rolimã, peladas e pescarias no lago do parque do bairro.
Aos 16 anos, na mesma época em que curtia cantar e
tocar guitarra, entrou na órbita das motos e por ali
ficou. A origem humilde dos pais, Nelita e Ariovaldo, obrigou
Jacaré a andar sempre em motos emprestadas. Com uma
Leonette e uma Ducati, ambas de colegas do bairro, o jovem
piloto passou a brincar de cronometrar o tempo de voltas
no quarteirão. A Leonette era do amigo Carlos Paes
de Almeida, que deu uma entrevista para a revista Duas Rodas
Motociclismo, publicada em setembro de 1975: “Uma vez
fomos ver um acrobata francês que, diziam, fazia misérias
em cima da moto. Quando saímos, Jacaré disse
que aquilo era pouco e que fazia melhor. E fez mesmo!”.
Os familiares do piloto explicam que a adolescência
dele foi conturbada principalmente quando os pais se separaram.
A mãe voltou para Poços de Caldas, e o rapaz
ficou em São Paulo com o pai. De acordo com os parentes
ouvidos pela reportagem da Trip, pai e filho não se
davam bem: “O Ari não dava atenção
para o Carlos [Jacaré] nem para o Victório,
irmão caçula. Os meninos passaram por grandes
dificuldades”, comenta uma tia que prefere não
ter o nome divulgado. Nelita faleceu há poucos meses;
Ariovaldo tem mais de 80 anos e vive em São Vicente,
no litoral paulista.
Quando finalmente conseguiu uma moto própria (Norton
500), ele não foi muito longe, pois a destruiu num
acidente. A carreira nas pistas começou mesmo em 1973,
ao convencer Luis Latorre a lhe conceder uma Ducati 250.
A habilidade nas pistas arregalou os olhos de Edgard Soares
(1928-2006), que decidiu apostar suas fichas na ousadia do
iniciante. “O Jacaré era um destrambelhado,
andava na loucura, e meu pai resolveu colocá-lo na
equipe para concorrer contra o Denísio [Casarini] e o Tucano [Walter Barchi]”, recorda o filho Edgard
Francisco Soares. “Meu pai quis ensiná-lo a
competir, mas não teve tempo.” Tentaram montar
uma vida mais normal para o estreante, impondo horários,
treinos... A idéia não vingou. Rebeldia não
rima com regras. |
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