“O que interessa é pedir-lhes que me desculpem a paixão pela velocidade. Era o meu jeito de viver. (...) Moto não mata. O que arrasa os caras por aí é essa fome de velocidade que não sabemos de que maneira saciar. Quanto mais se corre, mais se deseja correr...” As palavras são de quem mal teve tempo de mostrar que era o melhor motociclista do Brasil. As palavras fazem parte da mensagem de Carlos Alberto Gonçalves Pavan, o Jacaré (1952-1975), psicografada pelo médium Francisco Xavier em Uberaba (MG), no dia 20 de janeiro de 1978. O mineiro de Poços de Caldas bateu as botas com apenas 23 anos de idade, a 150 km/h, na avenida Cidade Jardim, próximo ao restaurante Pandoro, participando exatamente daquilo de que, dias antes, prometera se afastar: os rachas ensandecidos. Jacaré não recusava um bom pega pelas vias de São Paulo. Ah, mas não mesmo. E também não pensava duas vezes na hora de se exibir: ficava em pé na moto no meio do trânsito, empinava na rua Augusta, desde a rua Colômbia até a avenida Paulista. Na garupa, continuava abusado: com as motos em movimento, passava de uma para outra e assumia o guidão. Coisa de louco.
A pilotagem agressiva que o levou ao título do Campeonato Paulista de 74 (e à liderança isolada do Brasileiro até a última etapa da temporada) reverberava também nas ruas e ele sempre se arrebentava. Basta relembrar qual era seu estado físico para a prova das 200 Milhas de Interlagos de 1975, disputada em 100 voltas pelo anel externo do circuito: uma série de acidentes o deixara com uma rótula inutilizada e um pino de aço de 42 cm segurando a tíbia da perna esquerda. Mal podia dobrar a perna direita. Uma semana antes da corrida outra queda lhe custou uma clavícula quebrada. Ainda assim, com uma Kawasaki 900 cc, venceu a categoria Esporte (a categoria Especial foi conquistada por Adú Celso). Jacaré teve dificuldade para subir no pódio. Depois de receber o troféu, foi carregado para a ambulância e levado ao hospital. Antes disso, porém, enquanto era ovacionado pela multidão, ele prometeu que naquele momento nascia um novo Jacaré, mais maduro, mais responsável, longe dos rachas inconseqüentes: “Agora vocês verão! Serei outro daqui para a frente e vou ser campeão mundial! Vou me recuperar, preciso me cuidar um pouco, conseguir um bom patrocinador para ir bem na próxima corrida, em Goiânia”. A tão esperada mudança de atitude não aconteceu, e ele pôs um ponto final na vida, na traseira de um Opala, seis dias após o show em Interlagos.
Por mais que tenha escrito uma carreira muito breve no motociclismo nacional (competiu de 1973 a 1975), Jacaré mostrou a que veio desde as primeiras aceleradas. Talvez isso explique o séquito de fãs fervorosos que o acompanhou até os últimos instantes: mais de 2 mil motoqueiros, com suas máquinas enfeitadas de cravos vermelhos, seguiram o cortejo fúnebre pelas ruas de São Paulo rumo ao Cemitério de Vila Mariana. Um bando de marmanjos chorando, como se tivessem perdido um parente querido. Um dos maiores fãs de Jacaré, o empresário Flavio Abbud, de Volta Redonda (RJ), conta por que o considera tão especial. “Ele era arrojado e de origem humilde, desbancando gente com condições bem melhores. Ele quebrou as regras da pilotagem normal: na curva 1 de Interlagos, por exemplo, todos reduziam para a quinta marcha, a uns 220 km/h; o Jacaré não – entrava em sexta marcha, a 250, balançando a traseira.” Cayubi Rhormens, chefe de equipe de Edgard Soares, concorda com Flavio. Ao comentar para a revista Quatro Rodas Motos – Edição Especial, de novembro de 1980, como Jacaré fazia curvas, Cayubi disse: “Você desviava o olhar para não ver a queda, mas ele não caía. Pensava que ele não faria a próxima curva, e ele fazia – era um demente”.
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